Educação: somos todos 100% dependentes!

É a partir da singularidade humana que se criam as novas possibilidades, estimulam as buscas por soluções inteligentes, se enriquecem as relações e se estabelecem direções antes não pensadas para todas as áreas da produtividade e da Ciência

Por Maria Irene Maluf* | Foto: Shutterstock | Adaptação web Caroline Svitras

Ainda que não fossem os grandes pensadores, cientistas e educadores a afirmar, bastariam o bom senso e a observação, ao longo da vida, para percebermos uma inegável realidade: o filhote do homem nasce em situação de dependência direta com o meio que o cerca, com sua família, com a cultura e com a educação formal para vir a se constituir como realmente humano. O Homem precisa ser educado para se inserir na sociedade e adquirir conhecimentos (Kant). Mas o que constitui essa educação afinal?

 

Ao nascer, a criança passa a fazer parte de um meio sociocultural e a receber dele uma série de estímulos, informações, que vão se agregando a partir de um processo multidirecional de passagem, que acaba por dotá-la de conhecimentos e valores, estratégias e ferramentas, que permitem transformar, desenvolver e adaptar, gradualmente, ao longo, principalmente da infância, as suas características pessoais às exigências da sociedade.

 

Sabemos que, historicamente, a educação se prendeu muito mais a impor indicadores do que a ser um instrumento que estimulasse o potencial individual. Dito de outra forma, o seu movimento básico, não se constituiu noutro senão o de acomodar as singularidades ao socialmente aceito como norma apropriada, fosse para garantir a sobrevivência, fosse para fortalecer o crescimento dos diferentes grupos humanos.

 

Um estímulo à inteligência emocional da criança

 

Entretanto, o desenvolvimento das sociedades e o aprimoramento dos conhecimentos nas distintas áreas do saber, entre outros fatos, trouxeram, paulatinamente mudanças que ocorreram com maior rapidez a partir do momento em que se percebeu que a individualidade, a singularidade humana é uma das riquezas mais expressivas da nossa espécie. É a partir dela que se criam as novas possibilidades, se estimulam as buscas por soluções inteligentes, se enriquecem as relações e se estabelecem direções antes não pensadas para todas as áreas da produtividade e da Ciência.

 

Muitas teorias e ideias foram debatidas, nos últimos séculos, a respeito da educação e de seu sentido para a humanidade. Mas não nos deteremos aqui a elas, posto que o objetivo que nos prende é outro.

 

Na atualidade, frente a um sem número de estímulos, a uma sociedade sempre em mudança, como pensar na educação de nossas crianças? Como pensar em preceitos que sirvam a todas as famílias e princípios que atendam à maioria das necessidades? Isso sem falarmos da escola, em boa parte do mundo – que, infelizmente, aqui no Brasil, também – encontra-se aquém das necessidades básicas que a contemporaneidade exige.

 

Pais que se valorizam criam filhos mais resilientes

 

A educação básica oferecida às novas gerações, nascidas sob a égide da tecnologia e da Ciência, paradoxalmente, não alcançou, ainda, a qualidade mínima necessária para garantir uma base sólida de conhecimentos. Outro e fundamental aspecto se delineia como um desafio, que ganhou proporções gigantescas neste momento em que o mundo está vivendo um novo modelo humano, sociocultural e financeiro interdependente, globalizado: a transmissão dos valores, a criação de novas atitudes que abracem as mudanças de novos paradigmas, que sustentem os conhecimentos crescentes da Ciência, da tecnologia e que garantam que as coisas mudam para permanecerem humanas, no final das contas!

 

Somente valores bem delineados afiançam que, na incerteza gerada durante as grandes transformações de toda ordem, o conhecimento alcançado e a capacidade de o adquirir livremente sejam preservados como bens maiores e a educação sirva ao seu propósito mais extraordinário, que é a conquista e a manutenção da autonomia, da dignidade e da liberdade humanas.

 

 

 

 

Revista Psique Ciência & Vida Ed. 100

Adaptado do texto “Educação: somos todos 100% dependentes!”

*Maria Irene Maluf é especialista em Psicopedagogia, Educação Especial e Neuroaprendizagem. Foi presidente nacional da Associação Brasileira de Psicopedagogia – ABPp (gestão 2005/07). É editora da revista Psicopedagogia da ABPp e autora de artigos em publicações nacionais e internacionais. Coordena curso de especialização em Neuroaprendizagem. irenemaluf@uol.com.br