Dor durante relações sexuais em homens pode ter causas emocionais

A presença de dor durante as relações sexuais é mais comum nas mulheres, porém, com menor frequência, também é referida por alguns homens

Por Giancarlo Spizzirri* e Carla Pereira** | Foto: Shutterstock | Adaptação web Caroline Svitras

Dispareunia é o termo técnico utilizado para a dor antes, durante ou após a relação sexual e, em alguns casos, presente na masturbação.

 

De acordo com a Classificação Estatística Internacional de Doenças e Problemas Relacionados à Saúde, 1993 (CID-10), a dispareunia é uma dor intensa durante o intercurso sexual, podendo ocorrer em homens e mulheres, tendo como causa uma condição patológica local ou uma causa emocional.

 

A dispareunia ocorre, aproximadamente, em 15% a 20% das mulheres e na população masculina não excede 5%; ainda assim, essa não é uma situação que deva ser ignorada pelos homens, uma vez que há tratamento praticamente para todos os casos.

 

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É importante observarmos que as relações sexuais dolorosas não são uma doença, mas sim um sintoma que pode estar associado a alterações anatômicas, psicológicas, infecciosas ou inflamatórias.

 

Entre as causas anatômicas e/ou mecânicas podemos destacar:

1) Fimose: é a dificuldade e/ou incapacidade de se expor a glande, a parte terminal do pênis, pois a pele que a recobre não apresenta abertura suficiente. Como o prepúcio não pode ser retraído, surge a dor ao tentar a penetração ou também durante a masturbação;

2) Língua presa: o frênulo do pênis é a pequena dobra de tecido que liga o prepúcio à cabeça da glande; em alguns homens essa dobra é menor, de modo que pode ocorrer uma fissura durante a penetração, causando queimação intensa, dor e às vezes sangramento.

3) Doença de Peyronie: é a curvatura anormal do pênis durante a ereção. Esse processo ocorre por formação de cicatrizes no revestimento do corpo cavernoso do pênis.

4) Assoalho pélvico espástico: hipertonia da musculatura do assoalho pélvico, prejudicando a função dessa região e levando a uma dificuldade de contrair e relaxar esse grupo de músculos.

 

Outros fatores que levam à dispareunia em homens são os processos inflamatórios como, por exemplo, a prostatite (inflamação da próstata), uretrite (inflamação da uretra), epididimite (edema do epidídimo – via pela qual as secreções dos testículos para os canais deferentes e dutos ejaculatórios são despejados), condiloma (infecção viral que causa verrugas na mucosa da glande), herpes (lesão da mucosa que gera dor intensa), processos alérgicos ocasionadas por produtos de higiene corporal, lubrificantes ou látex, doenças fúngicas e doenças sexualmente transmissíveis (DSTs).

 

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Com relação às causas emocionais, essas podem estar relacionadas a causas psicológicas, decorrentes dos conflitos inconscientes que provocam esse tipo de dor. Embora menos comum em homens do que nas mulheres, podemos citar como fonte de certos problemas receber uma educação familiar repressiva, responsável pela transferência de tabus, preconceitos e sentimentos negativos. Histórico de abuso ou violência sexual, que ocorrem geralmente na infância, também pode gerar conflito intenso e negação do prazer. É importante investigar e analisar a dinâmica do casal, uma vez que conflitos conjugais podem agravar / despertar a dor durante a relação sexual.

 

Observa-se que os aspectos psicológicos chegam a representar, como causa, aproximadamente 50% dos casos. Em muitos casos, a dor pode estar presente em homens que tiveram pouca atividade sexual até a terceira década de idade. Não se masturbavam, não têm muitas experiências de namoro e de intimidades físicas. Assim, as primeiras experiências sexuais podem ser dolorosas, produzindo evitação de aproximações sexuais na sequência, e sempre estão associadas a outras condições psicológicas relacionadas à falta de assertividade, dificuldade em expressividade emocional e de relacionamento social, com poucas habilidades sociais e de relacionamento afetivo.

 

O tratamento da dispareunia masculina depende da causa, uma vez que pode ser física, orgânica ou emocional. Dessa forma, o tratamento poderá ser farmacológico, cirúrgico, psicoterapêutico e fisioterápico e, em alguns casos, uma intervenção interdisciplinar.

 

Para o sucesso do tratamento é importante que o homem quebre paradigmas, tabus e preconceitos e, quando apresentar dor na relação sexual e/ou na masturbação, peça ajuda para o seu médico, o qual poderá investigar e direcionar a melhor opção de tratamento, visando sempre a cura e o bem-estar do indivíduo.

 

Revista Psique Ciência & Vida Ed. 133

Adaptado do texto “Dispareunia masculina”

*Giancarlo Spizzirri é psiquiatra doutor pelo Instituto de Psiquiatria (IPq) da Faculdade de Medicina da USP, médico do Programa de Estudos em Sexualidade (ProSex) do IPq e professor do curso de especialização em Sexualidade Humana da USP.

**Carla Pereira é fisioterapeuta, doutoranda e mestre pela Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo. Especialização em Sexualidade Humana (FMUSP); Fisioterapia em Gerontologia e Oncologia. Fisioterapeuta do Serviço de Fisioterapia Pélvica (Santa Casa de SP).