Doenças mentais são reposta ao sofrimento

Ao contrário do que alguns ainda acreditam, a Psicologia Positiva não ignora o sofrimento humano nem deixa de reconhecer sua importância. No entanto, eliminar a dor não é suficiente quando se pretende ser feliz

Por Lilian Graziano* | Foto: Shutterstock | Adaptação web Caroline Svitras

Ao começar a escrever para esta coluna, impus a mim mesma a tarefa de falar sobre felicidade e emoções positivas em geral. Tal objetivo jamais teve, no entanto, o propósito de negar a importância da dor humana ou mesmo a relevância do papel daqueles profissionais de saúde que se dedicam a descrevê-la. O que eu pretendia era fazer um contraponto em relação ao discurso psicológico vigente que, por se encontrar baseado no modelo de doença, tem se apoiado quase que exclusivamente no caráter disfuncional do ser humano. Percebo, no entanto, que descrever o sofrimento humano é, antes de tudo, ajudar a dirimi-lo e esse é um papel da Psicologia. Papel este cuja importância reconheço e – mais do que isso – pratico diariamente na clínica.

 

Acontece que falar sobre felicidade pode parecer por demais utópico para os milhares de indivíduos que se encontram perdidos em meio à dor e ao sofrimento. Pessoas que vivem quadros de depressão, síndrome do pânico e toda uma variedade de transtornos psiquiátricos que, do ponto de vista de quem os vivencia, nada mais são do que “doenças da alma”.

 

Falando de uma maneira muito simples, porém bastante verdadeira, a doença mental nada mais é do que a falta de alternativas ou, melhor dizendo, a percepção dessa falta (o que, em termos práticos, torna-se a mesma coisa). A grande dor de um deprimido é não ser capaz de vislumbrar uma saída para o seu sofrimento, não enxergando qualquer sinal de “luz no fim do túnel”. Dependendo da intensidade de seu sofrimento e do tempo que se encontra exposta a ele, a pessoa que sofre começa a se enxergar como condenada a uma espécie de prisão perpétua, de onde não há como fugir. Trata-se de uma visão cujas consequências costumam ser devastadoras.

 

Sempre conto o caso de uma paciente que recebi no consultório e que sofria de depressão há 5 anos. Sei que as pessoas são capazes de resistir muito até terem coragem de buscar tratamento, por isso esses 5 anos, a princípio, não me surpreenderam. Meu espanto foi descobrir que ela estava em tratamento psiquiátrico e psicológico havia 4 anos, exatamente como deveria ser. Fiquei confusa em relação ao porquê de essa pessoa me procurar já que, segundo suas próprias palavras, ela fazia psicoterapia e gostava muito do profissional que a acompanhava. Foi quando a paciente disse ter escutado uma entrevista minha na qual eu dizia ter defendido uma tese sobre felicidade. Jamais esquecerei do olhar dessa mulher ao me dizer: “Há anos luto contra uma depressão e toda vez que digo à minha terapeuta que eu só queria ser feliz, ela me responde que felicidade não existe. Estou aqui para lhe fazer uma simples pergunta: felicidade, afinal, existe?”.

 

Casos como esse me fazem questionar nossa responsabilidade como profissionais de saúde. Atendi muitos pacientes com síndrome do pânico que ouviram de seus psiquiatras que sua doença poderia apenas ser tratada, jamais curada. Ou seja, que eles dependeriam de medicamentos por toda a vida. Nada contra medicamentos. Muito menos contra psiquiatras. Acontece que conheço dezenas de pacientes que, por meio da psicoterapia puderam, com acompanhamento médico, abandonar a medicação, permanecendo sem recaída por anos. Qual nosso conceito de cura? Taí uma discussão que daria “pano pra manga”.

 

Por fim, gostaria de dizer que a simples ausência de sofrimento não é capaz de, por si só, trazer felicidade. No entanto, trata-se de um bom começo ou, como preferirem, de um caminho que, definitivamente, vale a pena ser trilhado.

 

Revista psique Ciência & Vida Ed. 105

Adaptado do texto “Para os que Sofrem”

*Lilian Graziano é psicóloga e doutora em Psicologia pela USP, com curso de extensão em Virtudes e Forças Pessoais pelo VIA Institute on Character, EUA. É professora universitária e diretora do Instituto de Psicologia Positiva e Comportamento, onde oferece atendimento clínico, consultoria empresarial e cursos na área.
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