Desvendando a origem do preconceito racial

Cientistas e pesquisadores no Brasil e em vários outros países desenvolvem trabalhos específicos, com o objetivo de esclarecer os motivos que levam à discriminação motivada por etnia

 

*Por Roberta de Medeiros

Pesquisa de Galen von Bodenhausen concluiu que a maioria das escolhas se baseia em estereótipos étnicos, cabendo aos negros a associação à venda de drogas / Foto 123RF

Disposto a investigar a dinâmica mental de uma pessoa que tem aversão a estrangeiros, um psicólogo americano decidiu realizar um exercício incomum: levou um grupo de universitários a avaliar casos fictícios de colegas que teriam, supostamente, praticado algo ilícito – como espancar uma pessoa, vender drogas ou colar na prova , atribuindo o gesto negativo a um dos estudantes do grupo.

O experimento de Galen von Bodenhausen, da Universidade Noroeste, de Chicago, nos Estados Unidos, revelou que a maioria das escolhas se baseou em estereótipos étnicos: o comportamento agressivo foi atribuído aos latinos, a venda de drogas foi associada à imagem do negro americano e a trapaça na prova ao perfil esportivo, por sua hipotética inferioridade intelectual.

Até aqui a pesquisa apenas comprova a existência do estigma. O curioso na análise é que os alunos fizeram teste em horários especiais, de manhã, à tarde e à noite. Foi constatado que uma maior parcela de estudantes com dificuldade de acordar cedo se deixou guiar por estereótipos raciais no período da manhã, quando eles mostraram maior certeza ao culpar um colega pelo ato ilícito.

Ao contrário, aqueles com hábito de madrugar ofereceram respostas preconceituosas especialmente à noite, quando já estavam cansados. Já os que avaliaram o caso à tarde apresentaram um juízo mais ponderado, com julgamento em fatos descritivos oferecidos pelo examinador.

O que prova que as ideias preconcebidas afloram quando o julgamento não passa pela reflexão, nos momentos de cansaço e pressão, por exemplo. Tudo leva a crer que o preconceito atua como um mecanismo “poupador de energia” do cérebro. Ele funciona como piloto automático da mente. Ao ser ativado, realiza todo o trabalho sozinho, processando as informações com maior eficiência quando a consciência não puder assumir o comando.

Estigma simplificado

Estudos da Psicologia Social demonstram ainda que o estigma se assenta primordialmente na maneira como a memória funciona. Ao esbarrar com uma pessoa de um grupo estranho, ela põe de imediato à disposição ideias e convicções simplificadas, às quais sempre se pode recorrer em uma situação de emergência – e, principalmente, sem grande esforço.

Isso explica as gafes imperdoáveis ou os lapsos da mente. É o que confirmou a experiência do psicólogo Neil Macrae, do Dartmouth College, em Hannover, que orientou um grupo a avaliar certa pessoa. Para que as ideias estereotipadas fossem reprimidas pelos voluntários, estes foram dispostos diante de uma câmera de vídeo. O artifício realmente induziu o grupo a camuflar seus preconceitos.

Sob pretexto de que a filmagem seria interrompida por causa de um defeito técnico, a experiência foi repetida. Só que, dessa vez, a reação foi flagrada em sua expressão espontânea. Quem havia controlado seus preconceitos passou a brincar jocosamente com o estereótipo antes mascarado. Ou seja, o contragolpe da repetição apanhou o grupo de surpresa.

Em muitas situações, o preconceito serve como um escudo protetor da autoestima, observaram os psicólogos sociais Steven Fein, do Williams College, em Massachusetts (EUA), e Steven Spencer, da Universidade de Waterloo, no Canadá. A pesquisa conduzida por eles revelou sinais de que pessoas com postura positiva em relação a si mesmas externam menos preconceitos.

Para explicar as crueldades cometidas contra estrangeiros, os estudiosos americanos Sheldon Solomon, Jeff Greenberg e Tom Pyszczynski se valeram da teoria do gerenciamento do terror, que se baseia no medo da morte. Para se proteger dela, cria-se um sistema de valores e regras de conduta. Quando ameaçados por outra cultura, reagiremos, inseguros, com atitudes discriminatórias.

“Nós somos diferentes um do outro, mas eles são todos iguais”, é a lógica racista. O que se explica pelo fato de conhecermos o grupo ao qual pertencemos e suas diferenças, enquanto o grupo estranho nos parece um bloco monolítico. Assim, experiências negativas funcionam como reforço do estereótipo, enquanto vivências positivas são logo vistas como exceções.

Apesar de o preconceito ser uma muleta do inconsciente, uma pessoa é capaz de decidir se vai avaliar um grupo sob o prisma de ideias generalistas ou a partir de fatos reais. Pelo menos um bom motivo para a tolerância: pessoas preconceituosas vivem em ambiente cheio de conflitos e medos. Sentem temor constante, por exemplo, de ser atacadas ou molestadas por estrangeiros supostamente hostis, observaram os psicólogos americanos Robert Baron e Donn Byrne. Uma postura que, enfim, resulta numa redução considerável da qualidade de vida.

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*Roberta de Medeiros é jornalista especializada em Neurociência e divulgação científica