Depressão na infância

Em função das particularidades que o transtorno apresenta nessa fase da vida, e que precisam ser observadas criteriosamente, o diagnóstico acaba se tornando difícil

Por Andreia Calçada* | Foto: Shutterstock | Adaptação web Caroline Svitras

Por meio da experiência que adquiri, atuando 15 anos como psicoterapeuta infantil, percebo a dificuldade dos profissionais da área em diagnosticar a depressão em crianças. A depressão na infância possui particularidades, que precisam ser observadas. São diferentes as manifestações do problema em crianças e nos adultos, em função do processo de desenvolvimento que existe na infância e adolescência. O sofrimento moral, por exemplo, responsável pela baixa autoestima, no adulto pode se apresentar como um sentimento de culpa e, na criança, como ciúme patológico do irmão mais novo.

 

As crianças, em função da idade, ainda têm maiores dificuldades em identificar e expressar o que sentem. Portanto, apresentam somatizações no corpo, problemas comportamentais, como a agressividade, por exemplo, problemas alimentares, além dos encontrados nos adultos, como a tristeza e a falta de motivação.

 

Por ser o transtorno depressivo infantil um transtorno do humor capaz de comprometer o desenvolvimento da criança ou do adolescente, além de interferir com seu processo de maturidade psicológica e social, este necessita de atenção especial, já que o tratamento adequado na infância pode prevenir problemas na adolescência e na idade adulta. Alguns exemplos são as dificuldades menos graves, como o fato do desenvolvimento social e escolar ser menor do que o esperado. De forma mais intensa, gera um adolescente com problemas graves de autoestima, dificuldades de relacionamento e de desempenho, que podem evoluir, até mesmo, para casos de suicídio.

 

Faz parte de uma avaliação psicológica adequada a integração dos sintomas apresentados, com o dados obtidos durante o processo diagnóstico, desde a entrevista com os pais (histórico familiar – dinâmica – e dos sintomas da criança, bem como suas interações sociais), até sua interação com o examinador e o conteúdo de suas projeções lúdicas, além dos testes projetivos. Os conteúdos daí advindos darão, junto aos sintomas apresentados, uma consistência maior ao diagnóstico. O diagnóstico diferencial, entre a depressão infantil e os sentimentos normais do desenvolvimento infantil, é fundamental. É normal que a criança sinta tristeza, raiva ou medo, mas, se tem dificuldade em expressar pode gerar sentimentos que precisam apenas ser comunicados. Por exemplo, é normal que uma criança se sinta triste com a separação dos pais. Para isso, se faz necessário avaliar, também, sua situação familiar, existencial, seu nível de maturidade emocional e, principalmente, sua autoestima. Além das entrevistas com a criança, é muito importante obter informações sobre sua conduta, segundo informações dos pais, professores e outros colegas médicos ou psicólogos, costurando tais dados aos outros do processo diagnóstico. Importante, também, é identificar o histórico de depressão na família já que o fator genético é relevante.

 

Os critérios diagnósticos relacionados ao tempo e à motivação para os sentimentos depressivos devem ser levados em consideração. Os sintomas mais frequentes da depressão na infância e na adolescência costumam ser os seguintes: insônia, choro, baixa concentração, fadiga, irritabilidade, rebeldia, tiques, medos, lentidão psicomotora, anorexia, problemas de memória, desesperança, ideações e tentativas de suicídio. A tristeza pode ou não estar presente.

 

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Os pesquisadores têm aumentado a constelação de sintomas associados à depressão infantil e, por causa disso, cada vez mais os distúrbios do comportamento da criança estão sendo relacionados a uma maneira depressiva de viver. Surgem, ainda, preocupações típicas de adultos, tais como a respeito da saúde e estabilidade dos pais, medo da separação e da morte e grande ansiedade.

 

Os principais sinais são os seguintes: mudanças significativas de humor; diminuição da atividade e do interesse; queda no rendimento escolar, perda da atenção; distúrbios do sono; aparecimento de condutas agressivas; autodepreciação; perda de energia física e mental; queixas somáticas; fobia escolar; perda ou aumento de peso; cansaço matinal; aumento da sensibilidade (irritação ou choro fácil); negativismo e pessimismo; sentimento de rejeição; ideias mórbidas sobre a vida; enurese e encoprese (urina ou defeca na cama); condutas antissociais e destrutivas; ansiedade e hipocondria.

 

O tratamento desse tipo de transtorno necessita de atenção especializada, Psicoterapia, orientação à família, atuação conjunta escola-família e psicoterapeuta, além de avaliação psiquiátrica. O preconceito à medicação deve ser trabalhado junto aos pais, caso realmente se faça necessário o uso desse recurso.

 

Revista Psique Ciência & Vida Ed. 98

Adaptado do texto “Depressão na infância”

*Andreia Calçada é psicóloga, psicoterapeuta (com formação em Gestalt, Psicoterapia Breve, Terapia Cognitivo-comportamental, Hipnose Ericksoniana), pós-graduada em Psicopedagogia, especialista em Psicologia Clínica e Psicopedagogia Clínica, especialista em Neuropsicologia. Autora dos livros Falsas Acusações de Abuso Sexual: O outro lado da História, coautora do livro Guarda Compartilhada: Aspectos Psicológicos e Jurídicos.