Depressão cresce entre os adolescentes

A saúde mental dos jovens está caindo no mesmo ritmo em que crianças são privadas de praticar o autocontrole e resolução de conflitos por meio de brincadeiras

Por Michele Muller* | Foto: Shutterstock | Adaptação web Caroline Svitras

A depressão é, hoje, a causa principal de incapacidade entre jovens de 10 a 19 anos, segundo dados de 2014, da Organização Mundial da Saúde. Nada que surpreenda quem trabalha ou convive com esse público. A realidade é evidente e suas consequências podem ser graves. Atualmente, o suicídio representa mais perigo do que qualquer doença nessa fase, uma realidade sombria que revela que depressão chega cedo e numa incidência cada vez maior.

 

Psicólogos da Universidade de San Diego divulgaram uma meta pesquisa, envolvendo 6,9 milhões de jovens norte-americanos, e comprovou aumento nos sintomas de depressão e ansiedade entre esse público. Com relação aos estudantes da década de 1980, hoje os jovens apresentam 75% mais distúrbios de sono e 38% mais problemas de memória – manifestações que servem como um alerta para a saúde mental.

 

Uma das autoras do estudo, a pesquisadora Jean Twenge já havia concluído, em outra análise divulgada em 2009, que o aumento da incidência de problemas psicológicos entre adolescentes vem crescendo de forma constante desde a década de 1930. Autora de diversos livros de Psicologia – dentre eles, Generation Me (Geração Eu), sobre o comportamento dos jovens do século 21 – ela constatou que os estudantes, hoje, são mais instáveis e se sentem muito mais isolados e insatisfeitos com a vida do que as gerações de seus pais e avós.

 

Na análise de Twenge, esse declínio na saúde mental dos jovens é uma resposta ao crescimento da valorização do consumo e à busca, quase obsessiva, da sociedade atual pelo sucesso. Diante de objetivos de vida extrínsecos, que dependem do ganho financeiro e material, e cada vez mais longe dos intrínsecos, relacionados ao desenvolvimento pessoal e espiritual, os jovens sentem que têm cada vez menos controle sobre a própria vida. E o que seria a ansiedade, essa famosa vilã da saúde mental, se não a sensação de ter pouco domínio sobre o destino?

 

A fragilização da saúde mental, resistindo a tantos novos tratamentos que surgem no mercado, é, certamente, um reflexo de grandes mudanças ambientais; e o materialismo valorizado desde a infância é, sem dúvida, um deles. Mas o professor do Boston College e pesquisador em ciências biológicas Peter Gray, autor de Free to Learn (Livre para Aprender) e Psychology (Psicologia), analisou a questão sob outro espectro. Investigador das raízes biológicas e antropológicas da educação, percebeu que a atividade mais importante da infância encontra-se em constante declínio nas últimas décadas – desde que o nível de ansiedade dos jovens começou a subir. Segundo ele, as crianças, hoje, têm muito menos tempo para brincar livremente do que a geração anterior. E seus pais já tiveram menos que seus avós.

 

Esse tempo vem sendo preenchido com mais estudo, quantidade maior de lição de casa e atividades extracurriculares coordenadas por adultos, sem falar na televisão e, mais recentemente, nos jogos eletrônicos. A obsessão pelo sucesso levou os pais a valorizar, cada vez mais, as notas e avaliações, incentivar a competitividade e pressionar a criança a aprender cada vez mais em menos tempo. As escolas têm mais dias letivos e o tempo médio de recreio vem diminuindo, sendo que muitas oferecem atividades assistidas com o intuito de “aproveitar melhor” o tempo livre das crianças.

Depressão na infância

 

Sem a liberdade de explorar o mundo sozinhas, longe da supervisão e julgamento do adulto, elas são privadas do meio mais eficaz que a natureza lhes deu de aprender e de praticar o autocontrole. Ao brincar independentemente, crianças fazem escolhas e vivem suas consequências, aprendem a criar e a seguir regras, resolvem seus próprios problemas e são constantemente desafiadas a segurar seus impulsos e a controlar seus medos. Sem a intervenção de um adulto, não existe método mais eficaz do que a brincadeira para aprender a negociar com outros, a se defender de injustiças e a controlar a ira.

 

“Brincar é o meio primário para praticar e desenvolver habilidades sociais e cognitivas, que são fundamentais para seu sucesso na cultura em que as crianças são inseridas. Nada que fazemos, nenhum brinquedo, nenhum ‘tempo de qualidade’ com os filhos, nenhuma atividade especial pode compensar a liberdade para brincar que estamos tirando das crianças. O que elas aprendem por meio de suas próprias iniciativas não pode ser ensinado de outra forma”, salienta Gray, em seu livro Free to Learn.

 

Existe, sem dúvida, uma necessidade maior de se preocupar com a segurança e, hoje, elas já não brincam nas ruas com independência. Somado a isso está o fato de que os adultos vêm perdendo a confiança nas próprias crianças.

 

Com menos filhos e mais protetores do que nunca, os pais hoje controlam de perto as brincadeiras, privando-os de qualquer perigo de uma forma exagerada. Crianças são julgadas como irresponsáveis e incompetentes e, em nome da segurança, são impedidas de desenvolver coragem e autoconfiança. “Perdemos de vista a maneira natural de criar os filhos”, lamenta o pesquisador.

 

Com menos tempo para praticar as capacidades que só a brincadeira livre desenvolve, tornam-se adolescentes despreparados para a independência e começam a viver as consequências da falta de empatia, incapacidade de lidar com conflitos e sentimento de pouco controle sobre o próprio destino. Fraquezas que podem comprometer a saúde mental e que, hoje, praticamente definem a geração que está deixando a infância.

 

Revista psique Ciência & Vida Ed. 107

Adaptado do texto “Depressão na adolescência não é brincadeira”

*Michele Muller é jornalista com especialização em Neurociência Cognitiva e autora do blog http://neurocienciasesaude.blogspot.com.br