Dependência herdada: como pais dominados por vícios podem afetar o comportamento e saúde dos filhos

Entre outros efeitos, as substâncias psicoativas alteram o tecido cerebral. Pais dominados pela droga e álcool podem afetar o comportamento e a saúde dos filhos

*Por Roney Moraes

Foto Shutterstock

Sabemos que o adolescente está em constante transformação e que todo esse caminho serve de experimentação para a jornada adulta que a sucede. Por isso mesmo é que os pais ou responsáveis devem estar presentes, entendendo os processos de mudanças fundamentais, mas em momento algum se dispersando de uma visão mais acurada e amadurecida em relação aos filhos.

Não relevar as percepções, por mais sutis que possam parecer, em relação às atitudes diferentes do usual de seus filhos é um desafio e uma meta a serem traçados por aqueles que se preocupam com o futuro dos menores que, por implicações genéticas, estão mais propensos a tornarem-se dependentes apenas com poucos contatos com os entorpecentes.

Crianças inquietas, com dificuldade de interação, aprendizado, de comportamento agressivo, e que, quando adolescentes, podem ter uma iniciação precoce no uso de álcool e outras drogas. Este é o perfil comum entre os nascidos de pais que são dependentes químicos. Distúrbios de comportamento dos filhos são as principais consequências do abuso dos pais. O que é comum também, nesses casos, é que os meninos ou meninas tenham conflitos com a lei (Penha, 2014).

A síndrome de abstinência neonatal em bebês que foram expostos ao uso contínuo de álcool e outras drogas durante a gestação, principalmente o crack, acontece numa frequência alarmante. A criança já nasce muito inquieta, pois não está mais ingerindo a substância. Precisa de cuidados intensivos nas primeiras horas de vida.

Um problema ainda mais grave pode ocorrer, pois as primeiras semanas da gestação são as mais críticas. As más-formações físicas, na maior parte dos casos, acontecem nas quatro primeiras semanas, quando, algumas vezes, a mulher ainda não sabe que está grávida (Penha, 2014).

Surto epidêmico

Que o estado do Espírito Santo vive um “surto epidêmico” de crack, como em todo o Brasil, disso até quem não quer ver ao menos sabe. Só que o erro das análises nas pesquisas costumeiras, em relação à dependência química, está, justamente, na nomenclatura, na amostra, interpretação e divulgação.

O crack tem sim um poder devastador devido ao seu alto potencial de dependência, mas enganam-se os que pensam que é apenas uma “epidemia”, ou, ainda, que é a droga mais difícil de ser tratada pelos usuários. A diferença básica é que epidemia refere-se à elevação brusca, temporária e significantemente acima do esperado da incidência de uma determinada doença. Já o surto é uma ocorrência epidêmica na qual os casos estão relacionados entre si.

O fato é que o país tem poucas respostas. Embora o crack seja reconhecido como droga violenta e destrutiva, o vício não é um beco sem saída. Vários casos evidenciam que é possível se recuperar. Com surto ou não. Mas não há passe de mágica.

Há anos, o Sistema Único de Saúde desenvolve tratamentos baseados em atenção multidisciplinar por meio dos Centros de Atendimento Psicossocial para Álcool e Drogas (CAPS-AD), com apoio de hospitais para internação, em casos de crise, e estruturas da assistência social. O problema é o déficit crônico de recursos no SUS, além do fato de que os princípios que devem guiar esse atendimento nem sempre são seguidos.

Conforme a literatura e estudos sobre dependência química, esse contexto caberia ao álcool. Muitos esquecem que o alcoolismo ainda é o maior problema de saúde em se tratando de drogas no mundo. Embora o consumo moderado possa ter efeitos positivos, seu abuso é muito nocivo, já que eleva a pressão sanguínea, aumenta o nível de gorduras nocivas no sangue e danifica o tecido cerebral.

A Pesquisa Global de Drogas (PGD) de 2014 indica que o álcool foi a droga mais usada em todo o globo, à frente do tabaco e da cannabis. O álcool também foi a droga mais responsável pelo envio de pessoas a prontos-socorros, e o vício que mais preocupou amigos e parentes das vítimas. A PGD é a maior pesquisa mundial sobre drogas, perguntando aos usuários sobre seu uso de substâncias viciantes.

Uma constante interessante do estudo foram as informações incorretas sobre o álcool entre aqueles que mais bebem. A pesquisa mostrou que, de todos aqueles que podem ser classificados como altamente dependentes de álcool, segundo os padrões da Organização Mundial da Saúde, menos de 60% reconhecem que seu comportamento os coloca sob alto risco de problemas.

Se o crack tem feito cada dia mais reféns, os dependentes de álcool vivem numa espécie de síndrome de Estocolmo (nome dado a um estado psicológico particular em que uma pessoa, submetida a um tempo prolongado de intimidação, passa a ter simpatia e até mesmo sentimento de amor ou amizade perante o seu agressor).

O que insisto em dizer é que ao pensarmos em políticas para redução de danos aos usuários do crack esquecemos de trabalhar outras substâncias psicoativas. Elas são tão ou mais perigosas que os cachimbos e estão enraizadas fortemente em nossa cultura.

Nenhuma droga, qualquer que seja, é mais branda ou menos perigosa para o dependente químico. Mas, segundo levantamento realizado pela Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), demandado pela Secretaria Nacional de Políticas sobre Drogas (Senad), existem cerca de 370 mil usuários regulares de crack e similares no Brasil, sendo que aproximadamente 25 mil destes se encontram em território capixaba.

Eu pergunto: há condições reais para o debate? Uma vez que os mesmos intérpretes de pesquisas sobre drogas, no Brasil ou no estado, apenas retiram, para representar os gráficos, uma parcela pobre, sem escolaridade, infratora e moradora de rua. O universo estatístico é infinitamente maior do que isto. E é muito mais difícil tratar uma pessoa que corre o risco, o tempo todo, e com menos de um real, de sofrer uma recaída.

Segundo o antropólogo Maurício Fiore, integrante do Núcleo de Estudos Interdisciplinares sobre Psicoativos (Neip), formado por pesquisadores da área de Ciências Humanas, o crack não é a substância psicoativa que mais deveria ser tema de debate no Brasil, e sim o álcool. Mas, como está muito relacionado a um contexto de pobreza extrema, marginalização e ocupação de espaço público, a própria existência do seu consumidor é menos suportável.

É certo que têm aparecido dados sobre seu uso em lugares onde a opinião pública nem imagina, mas, por enquanto, é preciso precaução. O consumo de crack se disseminou pelo país e, ao que parece, teve um aumento razoável nos últimos anos. Mas não se trata de epidemia, e sim do fato de seu consumidor, por uma série de fatores, incomodar mais os olhos.

Infelizmente, para quem é doente (sofre a síndrome da dependência), uma dose de pinga é tão letal ou prejudicial quanto a fumaça de uma “pedra”. Talvez pior. Depende do que se entende por “epidemia”. O que se alastra por aí, na verdade, é a falta do que fazer a respeito do assunto. Agora sim, temos uma epidemia perigosíssima: a da ignorância e da indiferença.

Através da política de Atenção Integral a Usuários de Álcool e outras Drogas deu-se ao dependente químico o status de cidadão. O primeiro passo para uma abordagem humana e sem preconceitos está na garantia dos seus direitos básicos e fundamentais para a vida, como saúde, educação e assistência social. Antes, o usuário, comumente visto como um criminoso “sem-vergonha”, sempre esteve privado pelas medidas coercitivas e moralistas de tratamento.

Políticas de tratamento

Ao entrar nesse ambiente para fundamentar teoricamente a prática psicanalítica nas instituições governamentais ou não e o cuidado com os sujeitos usuários de substâncias, observamos que a psicoterapia, pela sua ética, que é a do sujeito e do seu desejo, é incompatível com a política impositiva apoiada em um sistema de regras e punições.

A Psicanálise torna-se viável para o tratamento de toxicômanos se voltarmos nossos estudos ao que Lacan nomeou como o “Discurso do Mestre”, um dos nomes do discurso do inconsciente, ou seja, dos sujeitos afetados por uma divisão. Enquanto os outros discursos estão voltados para o fenômeno do uso da droga e seu controle, a Psicanálise é um dispositivo avesso a esse discurso e tem como direção de tratamento fazer falar esse sujeito em sua singularidade radical, ou seja, dar lugar ao seu sintoma. Na experiência analítica é possível que se pergunte menos pela toxicomania do que pela droga como sintoma e sua relação com o sujeito do desejo, o dependente.

Segundo trecho do artigo “Reflexões a respeito da Psicanálise no campo das dependências químicas”, de César de Goes, cada sujeito possui uma relação peculiar com as drogas, e é ele que faz a sua droga e pode voltar sempre a procurá-la como recurso, e isso tem a ver com a sua particularidade. Portanto, uma dependência não se deve exclusivamente ao poder viciante de uma droga. Dessa forma, para a Psicanálise, o toxicômano é apenas um signo que identifica o paciente que faz uso compulsivo de uma determinada substância tóxica. O que existe para a Psicanálise é o sujeito, e é este que é colocado em evidência, e não a substância psicoativa.

Ética psicanalítica

Dos programas governamentais destinados ao tratamento mental e toxicômano, o CAPS é o que mais está em consonância com a ética psicanalítica: um modo de escutar e falar ao outro e do outro na sua alteridade (do inconsciente) compreendida como uma abertura, uma resposta. O outro como espelho.

No CAPS-AD, as ações partem do pressuposto de que existe um sujeito com voz, capaz de dizer de si mesmo. Não prevalece a lógica da cura, mas é cedido ao sujeito um lugar de existência subjetiva, uma condição permanente de escuta e questionamento acerca de como esse outro se torna ator principal na construção do seu projeto de tratamento.

Lá, a equipe multiprofissional é composta pela coordenação, enfermeiros, psicólogos, terapeuta ocupacional, assistente social, profissionais de nível médio, psiquiatra, clínico e auxiliar de serviços gerais. A descontinuidade é uma característica prevalecente no tratamento. São poucos os pacientes que permanecem por longo tempo na unidade. Diversos são os fatores que provocam essa característica. A fragilidade do vínculo com a instituição possivelmente tenha uma influência direta da relação que o sujeito estabelece com o seu objeto (droga), ou seja, com o gozo.

Num primeiro contato, parece que a escuta é ineficiente. Porém, dentro da rotina de desencontros, descontinuidade e um tratamento fragmentado, existem muitas falas que demandam a escuta e o cuidado para o campo da análise. Todos que compõem a equipe escutam. Até mesmo aqueles que se encarregam de tarefas operacionais ou administrativas. O que mudaria é: um psicanalista sabe fazer com aquilo que escuta e, se especializado, fará o necessário para um encaminhamento mais eficaz.

Há atuação psicanalítica em Comunidades Terapêuticas (CTs) sérias em seu quadro de tratamento. Como fazem as unidades da Fazenda “Padre Haroldo”, em Campinas-SP, afiliada da Federação Brasileira de Comunidades Terapêuticas (Febract), e as unidades da Associação de Apoio Terapêutico Reviver “Casa Reviver” em vários municípios no sul do Espírito Santo.

Desafios da saúde

É um desafio tanto da rede SUS quanto das CTs romper com o modelo centrado na doença e não no sujeito. Investir no social tendo como recurso terapêutico maior relação entre os pares também se faz necessário nesse sistema de comunidades que é histórico e com resultados eficientes no tratamento.

A exemplo das Comunidades Terapêuticas citadas, onde há espaços de escuta, acolhimento das angústias e experiências vividas e cuidados investindo na produção de subjetividades e de sociabilidades, deve haver maior interesse entre as partes (Saúde Mental e Representantes das CTs) no diálogo. Os maiores beneficiados, sem dúvida, serão os usuários, familiares e a sociedade.

O dependente, com a ajuda da Psicanálise, teria que chegar a entender que o que lhe falta não é a droga, mas algo que carece a todo ser humano. Desde o nascimento somos faltantes de alguma coisa. E essa necessidade de busca, mesmo inconsciente, é que nos faz pensar, conversar, criar e aprender a lidar com a dor de viver.

*Roney Moraes é psicanalista, especialista em Saúde Mental e Dependência Química, doutor (Dr. h.c.) em Psicanálise, coordenador do Centro Reviver de Estudos e Pesquisas sobre Álcool e outras Drogas (Crepad), analista didata da Escola Freudiana de Vitória e presidente da Associação Psicanalítica do Estado do Espírito Santo (Apees). Colunista e escritor, publicou os livros Sem Mais Palavras e A Arte no Divã e é membro da Academia Cachoeirense de Letras (ACL).

**Conteúdo adaptado do texto “Dependência herdada”

Revista Psique Ed. 121