Delírio e alucinação são transtornos diferentes. Entenda

O delírio é uma patologia que se caracteriza por alteração multifatorial e constantemente não diagnosticada, enquanto alucinações são vivências reais para quem está alucinando, embora inexistentes

Por Yago Felipe Hennrich* | Fotos: 123 RF | Adaptação web Caroline Svitras

Ao contrário do que se pensa, no delírio tudo tem importância, tudo é vivido com intensidade. O paciente está muito mais atento às vozes, aos passos, ao comportamento dos outros, à luz etc. No entanto, faltam nessa fase as vivências de “reconhecimento” ou estranheza. Nos falsos reconhecimentos poderá haver realmente certa semelhança entre as pessoas, semelhança essa que, habitualmente, passa despercebida, porém o paciente está mais atento. Também o contrário pode suceder, segundo Conrad (1963), que explica ambos os fenômenos por aquilo a que se chamou predomínio de propriedades.

 

Segundo o Manual de Diagnóstico e Estatística dos Transtornos Mentais 5ª edição (DSM-5, 1994, p. 87), os delírios são assim denominados: “Os delírios são crenças fixas, não passíveis de mudança à luz de evidências conflitantes. Seu conteúdo pode incluir uma variedade de temas (por exemplo, persecutório, de referência, somático, religioso, de grandeza). Delírios persecutórios (isto é, crença de que o indivíduo irá ser prejudicado, assediado e assim por diante, por outra pessoa, organização ou grupo) são mais comuns. Delírios de referência (isto é, crença de que alguns gestos, comentários, estímulos ambientais e assim por diante são direcionados à própria pessoa) também são comuns. Delírios de grandeza (quando uma pessoa crê que tem habilidades excepcionais, riqueza ou fama) e delírios erotomaníacos (quando o indivíduo crê falsamente que outra pessoa está apaixonada por ele) são também encontrados. Delírios niilistas envolvem a convicção de que ocorrerá uma grande catástrofe, e delírios somáticos concentram-se em preocupações referentes à saúde e à função dos órgãos”.

 

As doenças mentais se distinguem em três situações: a psicose propriamente dita, o estado psicótico e a condição psicótica. Portanto, a psicose tem como núcleo estruturante central a prevalência do princípio do prazer sobre o princípio DMA. As funções do ego são prejudicadas, caracterizando o contato do indivíduo psicótico com seu mundo externo como um ambiente restrito ao seu universo interpsíquico, ou seja, um mundo só seu. É uma alteração multifatorial e constantemente não diagnosticada, fazendo com que os pacientes não recebam o tratamento adequado. Os delírios não dependem dos sentidos para ocorrer, mas dependem de algum estímulo externo real. Isso porque o delírio é como uma interpretação errada da realidade. A pessoa delirante distorce os estímulos à sua volta e os vivencia de forma diferente.

 

Segundo o DSM-5 (1994, p. 87), “delírios são considerados bizarros se claramente implausíveis e incompreensíveis por outros indivíduos da mesma cultura, não se originando de experiências comuns da vida. Um exemplo de delírio bizarro é a crença de que uma força externa retirou os órgãos internos de uma pessoa, substituindo-os pelos de outra sem deixar feridas ou cicatrizes. Um exemplo de delírio não bizarro é acreditar que a pessoa está sob vigilância da polícia, apesar da falta de evidências convincentes”.

 

Os delírios que expressam perda de controle da mente ou do corpo costumam ser considerados bizarros; eles incluem a crença de que os pensamentos da pessoa foram “removidos” por alguma força externa (retirada de pensamento), de que pensamentos estranhos foram colocados na mente (inserção de pensamento) ou de que o corpo ou as ações do indivíduo estão sendo manipulados por uma força externa (delírios de controle). “Distinguir um delírio de uma ideia firmemente defendida é algumas vezes difícil e depende, em parte, do grau de convicção com que a crença é defendida, apesar de evidências contraditórias claras ou razoáveis acerca de sua veracidade.”Pode-se dizer que os delírios não ocorrem vinculados ao aparelho sensorial. Eles são princípios inexatos da realidade que aparecem como ideias ou crenças distorcidas. Essas ideias são bastante pessoais e não encontram correspondência do ponto de vista de terceiros. Podem ter temas de fundo variados: perseguição, grandeza, problemas de saúde etc. Alguém que afirme estar sendo perseguido pela Nasa, por possuir uma fórmula secreta, está delirando. Algo interessante é que há muitos casos de delírios nos quais a ideia ou a crença distorcida são factíveis sem que haja, porém, uma base sólida que ateste esse juízo. Um exemplo disso é alguém dizer que seu irmão está sendo mantido refém na própria casa (evento factível) sem que haja qualquer elemento da realidade que lhe permita fazer tal afirmação. Nesses casos, a checagem da realidade, invariavelmente, derruba a crença (por isso mesmo) delirante.

 

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Adaptado do texto “Um projeto social com delirantes e alucinantes”

*Yago Felipe Hennrich. Este projeto faz parte da proposta de desenvolvimento de horas sociais/horas complementares do curso de Psicologia das Faculdades Integradas do Vale do Iguaçu (Uniguaçu), em União da Vitória (PR). A professora orientadora foi Natalie Castro Almeida.