“Cura gay” agride o conhecimento científico

O psicanalista Francisco Daudt refuta, enfaticamente, o teor do projeto que trata a homossexualidade como doença, que, por pressão da sociedade, teve sua tramitação interrompida

Por Lucas Vasques* | Fotos: João Clavio/Supertrampo | Adaptação web Caroline Svitras

Carioca do Cosme Velho, tradicional bairro do Rio de Janeiro, o psicanalista Francisco Daudt tem opiniões contundentes a respeito do tema e de outros assuntos referentes às orientações sexuais diversas. “Tratar a homossexualidade dessa forma é contra o que rege a Psicologia e a Medicina, desde que se convencionou, internacionalmente, que a orientação homossexual não constitui uma doença”.

 

O psicanalista também não se furta de criticar a postura de alguns psicanalistas, que, até os anos 1990, ofereciam tratamentos de reversão para a homossexualidade. “Para mim, isso é um sintoma do corporativismo arrogante da Psicanálise, de se julgar uma modalidade de conhecimento superior a outras e, por isso, imune a suas críticas”.

 

Formado médico pela Universidade Federal do Rio de Janeiro em 1971, migrou do ofício de clínico gastroenterologista para a Psicanálise em 1976. Lecionou teoria freudiana e, como faz questão de enfatizar, nunca se vinculou a instituições psicanalíticas. É colunista da Folha de São Paulo há quatro anos e acaba de lançar mais um livro, chamado A natureza humana existe – e como manda na gente, pela Casa da Palavra. A obra é baseada na coluna que publica, em semanas alternadas, no caderno “Cotidiano” da Folha.

Oxitocina, confiança e moralidade

 

O deputado João Campos (PSDB-GO), autor do projeto de decreto legislativo, chamado de “cura gay”, afirmou que a finalidade da iniciativa era “resgatar a premissa inicial do artigo 5º da Constituição, de que todos são iguais perante a lei. E a resolução nº 1 do Conselho Federal de Psicologia ofende esse princípio, na medida em que discrimina o homossexual e não dá o mesmo tratamento ao heterossexual”. Como você avalia essa interpretação?

Francisco Daudt – Não faço a mais pálida ideia de questões jurídico-constitucionais, pois não são assuntos da minha alçada. Mas é da minha competência dizer o que significa ‘cura gay’. Quando se fala na cura do câncer, se pensa na maneira de extirpar uma doença. Pois é nesta acepção do verbo curar que ele é usado na expressão “cura gay”: extirpar de uma pessoa a “doença” de ter o desejo sexual orientado para o mesmo sexo. Isso agride o conhecimento científico, que rege a Psicologia e a Medicina, desde que se convencionou, internacionalmente, (e a Organização Mundial de Saúde assim o reconhece) que a orientação homossexual não constitui uma doença. Processos semelhantes já ocorreram ao longo dos tempos. O mais recente e notório foi quando se passou a aceitar que 10% da população nascem canhotos, nasceram e nascerão, como manifestação da genética, sem que isso seja mais considerado um vício comportamental a ser extirpado mediante castigos ou a imobilização da mão esquerda. Ao mesmo tempo, se a orientação homossexual for vista por religiões como uma forma de possessão demoníaca, e seus devotos quiserem se submeter a exorcismos por essas religiões oferecidos, já não é problema nosso. É uma questão de fé, e as questões de fé fogem completamente ao debate científico. Nelas a Ciência não se mete, e não deve se meter. Portanto, não será procedimento feito por quem se comprometeu com as referências científicas que balizam a prática médica ou psicológica. Não será feito num consultório, por um psicólogo ou por um médico, e, sim, por um religioso, onde ele achar melhor praticá-lo.

 

 

O projeto causou muita polêmica na opinião pública, pois cura pressupõe que haja doença. Você acha que a orientação sexual do indivíduo, seja ela qual for, pode ser considerada uma doença? É possível traçar um paralelo entre o projeto e a escala Kinsey?

Daudt – As doenças psíquicas, mesmo quando a genética pesa mais, têm sempre uma vasta contribuição da forma que a pessoa é recebida e criada pelo mundo (pais, biológicos ou não, orfanatos, escolas, governos, ambientes, o conjunto daquilo que chamamos “cultura”, o meio em que a criança é cultivada). É só pensar na escola e na maneira cruel como as pequenas diferenças são tratadas (o bullying sempre tem o diferente como alvo), e lembrar dos apelidos que recebem (Quatro-olhos; Rolha-de-poço; Baleia; Cabeção; Pelé; CDF; Tampinha e, finalmente, Mariquinhas, ou “Mulherzinha”) para entender que o menino efeminado terá um mundo hostil pela frente. Que costuma começar em casa, quando o pai, decepcionado por não ter um filho viril, muscular, esportista, lutador, passa a discriminar e comparar com os irmãos aquele diferente. Pediram-me para traçar um perfil de um personagem de novela que é a “bicha-má” estereotipada, que se ressente de o pai preferir sempre a irmã, por mais que ele se esforce por agradá-lo. E eu pude imaginar que essa discriminação vinha da infância. Tudo isso para dizer que, quem pensa que ser gay é uma “opção”, desconsidera a vida dura que a imensa maioria deles tem. Que se lhes houvesse sido dada a escolha, certamente não seria essa vida que levariam. Que o mundo lhes é hostil desde pequenos, e que essa hostilidade não sumirá com a idade. Resulta que, como as doenças psíquicas são mecanismos de defesa exagerados, qualquer um que se viu na contingência de ter muito que se defender do mundo, tenderá a ter mais doenças psíquicas. Mas não significa que sua condição de base é, em si, uma doença. Negros, no sul dos Estados Unidos. Judeus, na Alemanha nazista. Soldados em guerra (preocupam os índices de suicídio entre os soldados norte-americanos atualmente no exterior). Todos são e foram grupos nos quais a depressão e a submissão (ambos são mecanismos de defesa) fizeram a festa. No entanto, nem nos passa pela cabeça que ser negro, ser judeu ou ser soldado possa ser considerado como doença psíquica. Mas sua pergunta contém uma complexidade a ser contemplada: os tipos intermediários (do tipo 1 ao tipo 5) podem ter uma margem de “conversão”. Se um tipo 1 decide, durante um período de sua vida, ter experiências homossexuais, pode bem resolver que já deu por visto esta fase, e que não quer mais encrenca com a sociedade, prosseguindo sua vida hetero, deixando o eventual desejo homo na prateleira. Assim, também um tipo 4 pode passar a vida casado e cuidando da família, mas depois da crise da meia-idade (quando se contempla que você passou metade da sua vida fazendo o que esperavam que fizesse, e resolve dizer, “de agora em diante o resto é meu”) querer se dedicar ao desejo complicado que esperava sua vez. Imaginar que um tipo zero ou um tipo 6 possam passar por essa “conversão”, quando o desejo oposto ao deles não lhes é nem um assunto, é contrariar Schopenhauer, que dizia que um homem pode fazer o que quer, mas não pode escolher o que vai desejar. De fato, o “livre arbítrio” não é livre ao ponto de que eu acorde amanhã e diga, “hoje vou me apaixonar por um rinoceronte”.

Consequências do abuso sexual ao longo do crescimento

 

Em função dessa análise, você sepulta, definitivamente, a antiga afirmação de que a homossexualidade é uma opção?

Daudt – Pergunto aqui: quem escolheria uma vida de deboches e perseguições, sofrimentos e desilusões? Quem, por gosto, se confinaria em guetos, com uma mobilidade social reduzida? Se não fosse empurrado e coagido a tal por uma força maior do que ela, pessoa alguma faria tal idiotice. É como “a bolsa ou a vida” dos assaltantes, que, assim como qualquer coação, não oferece propriamente uma escolha. É como a hipocrisia de chamar os pagadores de impostos de “contribuintes”. Ora, contribuição é uma ação de vontade, e eu pago muito imposto, e muito contra a vontade, pelo mau uso que fazem do nosso dinheiro. Considero a “cura gay” como um sintoma de doença política, que acontece quando as correlações de poderes dentro da sociedade (significado de “política”) se pervertem numa relação de domínio-submissão, que é uma das faces do sadomasoquismo.

 

 

Você já declarou, em artigos, que “nascer com algo de gay, tudo indica que venha de berço, hereditário ou da gestação”. Poderia explicar essas versões para o fato de uma pessoa ter uma orientação sexual diferente da convencional?

Daudt – Preferiria dizer “diferente da majoritária”, já que estamos falando de uma minoria. E uma minoria histórica, já que os tipo 6 masculinos são 5/6% da população, e os tipo 6 femininos, a metade disso (2,5/ 3%). Esse número, estável pelos tempos e pelas culturas, é um dos indicadores (assim como os 10% de canhotos) de que estamos diante que uma origem genética. Outra coisa gritante é que meninos de dois anos, mesmo não criados entre tias e irmãs, se comportem como meninas na escolha de brinquedos (pode encher o quarto da criança de guerreiros e bolas de futebol, não adianta), nas brincadeiras de casinha, na pouca muscularidade, na prolixidade, no comportamento junto a homens adultos. Ninguém os ensinou a ser assim. Encha o quarto de um menino nascido hetero de babados e bonecas, criado por tias, e ele inventará um jeito de subir numa árvore, e de correr atrás de uma bola. Gêmeos idênticos têm um índice de orientação homossexual idêntica de mais de 60%, enquanto gêmeos fraternos (com DNA diferente) partilham a orientação homossexual em menos de 10%. Há quem veja nisto um argumento para contradizer a genética, pois creem que identidade de genoma é identidade em tudo. Basta ver gêmeos idênticos para se perceber que eles não são tão idênticos assim. É incompreendido o fato de que o DNA de uma pessoa não é o mesmo que o projeto de uma linha de montagem, que produzirá peças sempre idênticas. É mais como uma receita de bolo: incidentes de preparação podem produzir, a partir da mesma receita, bolos diferentes.

 

 

É possível um homossexual se convencer que sua condição é uma doença e desejar ser “curado”?

Daudt – Perfeitamente possível. A fé é a adesão e a entrega amorosa ao absurdo e ao ilógico, venha ela das religiões formais, venha ela da mais forte das religiões informais e invisíveis, que é o senso comum. Entre os católicos, há o convencimento da transmutação de farinha de trigo cozida e de suco de uva fermentado, por meio das palavras do sacerdote, em carne e sangue verdadeiros de Jesus Cristo. Entre os adeptos do senso comum (que nem se sabem assim), há a convicção de que as mães são sagradas, que seu amor pelos filhos é perfeito, e qualquer pensamento contrário a isso é uma blasfêmia a ser punida. Seja pela religião formal, seja pelo senso comum, uma pessoa pode estar plenamente convencida de que os diferentes são doentes a serem curados. Ora, na falecida União Soviética, a dissidência política não era vista como motivo de internação em instituições psiquiátricas? Durante a história, não foi discutida a qualidade de ser humano de indígenas, de negros e de judeus? Não se subestima a força de convencimento do senso comum, ela é enorme. Assim como é enorme a tendência humana a delegar a alguém mais a tarefa de pensar e de agir e, depois, segui-lo com fanatismo.

 

 

O papel da Psicanálise é importante para ajudar os homossexuais com dificuldades de aceitação de sua própria orientação sexual e, também, com os problemas psicológicos, como depressão, derivados do preconceito e das pressões sociais?

Daudt – Se a Psicanálise contemplar o que Kinsey descreveu e ajudar o paciente a avaliar o peso que o desejo homoerótico tem em sua vida; se a Psicanálise souber distinguir as perturbações edípicas e as neuroses ou/e perversões delas decorrentes (e não decorrentes da orientação sexual em si), e tratarem do paciente sem querer enquadrá-lo num ideal absurdo de “normalidade psíquica”; se contemplar suas inserções únicas na cultura, aí, sim, ela terá sido de imensa ajuda à inteireza do indivíduo que a procurou.

 

Revista Psique Ciência & Vida Ed.

Adaptado do texto ““Cura gay” agride o conhecimento científico”

*Lucas Vasques é jornalista e colabora nesta publicação.