Crianças cruéis

É voz corrente que crianças são seres indefesos que nascem puras, boas e somente se corrompem em razão da sociedade, a qual pode até transmudá-las em delinquentes perversos. Ledo engano

Por Guido Arturo Palomba* | Foto: Shutterstock

As crianças têm muito exacerbado o instinto de imitação, que é, de certa forma, uma condição necessária da sociabilidade.

 

Nessa ordem de ideias, vale a pena lembrar que as crianças são levadas a imitar, pois a inteligência ainda é incipiente e dificulta as iniciativas de se conduzirem a si próprias. Para não ir muito longe, todo mundo sabe que elas assimilam com facilidade incrível os bons e maus modos, a pronúncia, a língua e os gostos das pessoas de seu ambiente.

 

Porém, existem algumas (felizmente poucas) que são portadoras de perversões graves, sobretudo ligadas à agressividade e à impulsividade. Há as hiperemotivas, cujas cóleras são frequentes; as epilépticas, com suas oscilações de humor e reações imprevisíveis; e existem também as crianças perversas constitucionais, que convergem univocamente para o desajustamento social, com precocidade às vezes extrema, o que, via de regra, prefigura os primeiros sintomas e sinais de mal grave que irá se manifestar adiante. Começa em casa: são dissimuladamente revoltadas, sem afetividade, brutais com seus irmãos, sobretudo com os menores e mais fracos, cruéis na relação com os animais, destruidoras e vândalas. Nas aulas, revelam-se preguiçosas, delatoras e são temidas pelos outros alunos. Com frequência acabam expulsas da escola por indisciplina, se não por roubo ou ato de vandalismo. Outras entram precocemente no crime de tráfico, roubo e assalto.

 

Crianças com esse perfil, em geral, serão os condutopatas quando atingirem a idade adulta. Interessante notar que foram propostos vários nomes para esses indivíduos desajustados constitucionalmente. O mais assertivo, a nosso juízo, é criminoso nato, de Cesare Lombroso, que mostrou, com clareza, em sua obra L’Uomo Delinquente, que são verdadeiros flagelos sociais em suas reações e delitos, inintimidáveis, reincidentes nos erros, irrecuperáveis, posto que irregeneráveis moralmente, ou como disse um dos seus melhores discípulos franceses, Léon Michaux: “A regeneração moral do perverso é uma ilusão. As esperanças se limitam a exigir, para a proteção da sociedade, criação de estabelecimento de trabalho e segurança”. Aqui no Brasil existem vários exemplos clássicos de indivíduos que poderiam aí encaixilhar-se.

 

Essa é uma verdade que as leis brasileiras ainda não entenderam, considerando que o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) dispõe que até os 18 anos crianças e adolescentes não cometem crimes, e sim o eufemístico “ato infracional”, os quais se devem à sociedade perversa e desigual. Dessa arte, conclui o Estatuto, ao completar 18 anos (maioridade) devem ganhar a liberdade plena, sem ficha ou passado criminal. Assim, recebem mais uma oportunidade. Infelizmente em vão e em prejuízo da salvaguarda social.

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Psique Ed. 134

*Guido Arturo Palomba é psiquiatra forense e membro emérito da Academia de Medicina de São Paulo.