Coração bate diferente com o estresse

A forma de lidar com o estresse ajuda a determinar o funcionamento do coração

Por Marco Callegaro* | Foto: Shutterstock | Adaptação web Caroline Svitras

Desde estudos pioneiros, já se acreditava nas relações entre o estresse e o coração. O controverso “tipo A”, conceito que emergiu de pesquisas realizadas por dois cardiologistas, na década de 1960, seria uma pessoa em última análise com atitudes que promoveriam o estresse, como competitividade e impaciência. As pessoas do tipo A, segundo os proponentes desse conceito, teriam cerca de quatro vezes maior risco de problemas cardiovasculares do que pessoas sem essas características. De fato, o coração sofre enorme impacto do estresse, e este, por sua vez, depende muito de nossa interpretação dos acontecimentos.

 

Uma nova pesquisa descobriu que a forma como lidamos com o estresse afeta diretamente os batimentos cardíacos. Como reagimos ao estresse importa mais do que a quantidade do estresse que enfrentamos. Reações negativas ao estresse, como interpretações catastróficas dos fatos, disparam doenças no coração, alterando o funcionamento dos batimentos cardíacos. Algumas pessoas lidam melhor do que outras com estresse, pois tem sistemas de crenças que levam a uma avaliação menos alarmante.

 

Para investigar essa hipótese, os pesquisadores mediram a taxa de variabilidade cardíaca. As medidas da variação na frequência dos batimentos cardíacos são formas de avaliar o funcionamento do sistema nervoso autônomo. Quanto maior a variabilidade, melhor a saúde, pois isso reflete a capacidade do coração responder a desafios. Já as pessoas que apresentam menores taxas de variabilidade cardíaca têm maiores taxas de morte prematura e doença cardiovascular.

 

Os participantes dessa pesquisa concordaram em realizar oito entrevistas por telefone diariamente, para monitorar eventos estressantes que teriam ocorrido durante o dia, e também foi medida sua variabilidade cardíaca. Os resultados mostraram que é a percepção dos eventos estressantes que prevê um coração menos saudável. Algumas pessoas do estudo experienciaram muito mais eventos estressantes, mas tinham corações mais saudáveis porque sua atitude era melhor, segundo a pesquisa sugeriu. Esses resultados nos mostram que as percepções das pessoas e suas reações emocionais aos eventos estressantes são mais importantes do que a exposição ao estresse de per si.

 

Esses achados vão ajudar a desenvolver intervenções que melhoram o bem-estar e promovem mais saúde. Lidar com os perrengues da vida cotidiana de forma positiva é a chave para a saúde em longo prazo. Essa pesquisa mostrou que pessoas que permaneceram calmas diante de irritações tiveram menos risco de inflamação. Inflamação crônica pode levar a problemas de saúde, câncer, doenças cardíacas e obesidade. Na verdade, cada vez mais se acumulam evidências de que os processos inflamatórios estão por trás das doenças físicas e mentais, sendo uma via comum na causalidade de patologias.

 

O chamado “modelo cognitivo”, criado pelo pai da Terapia Cognitiva, Aaron Beck, é exatamente essa noção de que a interpretação dos acontecimentos é o verdadeiro responsável pelo sofrimento humano. Não sofremos pelos fatos, mas pela interpretação dos fatos, já apontava o filósofo Grego Epíteto. O significado do estímulo é determinante das reações que este nos desperta, pois de acordo com essa atribuição do significado é que o cérebro reage disparando emoções, respostas fisiológicas e conduta. Essa visão que inspirou o desenvolvimento da Terapia Cognitiva tem uma evidência confirmatória a partir desse estudo com a variabilidade cardíaca, mostrando que os terapeutas cognitivos estão no caminho certo ao trabalhar com o sistema de interpretação dos pacientes na melhoria de suas vidas mentais. O coração agradece se adotarmos pensamentos que reduzem o excesso de alarme e estresse, e seguirmos mais leves na vida.

 

Revista Psique Ciência & Vida Ed. 125

Adaptado do texto “Coração bate diferente com o estresse”

*Marco Callegaro é psicólogo, mestre em Neurociências e Comportamento, diretor do Instituto Catarinense de Terapia Cognitiva (ICTC) e do Instituto Paranaense de Terapia Cognitiva (IPTC). Autor do livro premiado O Novo Inconsciente: Como a Terapia Cognitiva e as Neurociências Revolucionaram o Modelo do Processamento Mental (Artmed, 2011).