Consequências do abuso sexual ao longo do crescimento

As consequências que o abuso sexual na infância e na adolescência desencadeiam ao longo do desenvolvimento têm sido tema de diversos estudos

*Por Giancarlo Spizzirri

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Os transtornos psiquiátricos na idade adulta, relacionados a eventos traumáticos com cunho sexual sofridos na infância e na adolescência, podem ter influência de diversos aspectos, entre eles: idade do início do abuso, sua duração (por exemplo: episódio isolado ou múltiplos – ao longo do tempo), ameaça ou gravidade da violência (em alguns casos, com risco de vida), grau de relacionamento da vítima com o agressor, diferença de idade entre a criança e o perpetrador. A futura adaptação social das vítimas varia de indivíduo para indivíduo, conforme o tipo de violência sofrida, ausência de figuras parentais protetoras e da capacidade de reação individual diante de circunstâncias que geram sofrimento.

O abuso sexual ocorrido na infância tem sido considerado como um fator de risco para ideações e/ou tentativas de suicídio; e também apresenta uma relação estreita com outros transtornos psiquiátricos, como a depressão, o estresse pós-traumático e a dependência química (uso de drogas). Além dos mencionados anteriormente, há relação do abuso sexual na infância com disfunções sexuais, transtornos de ansiedade e perturbações do sono.

As sequelas emocionais comumente relatadas compreendem: sentimentos de baixa autoestima, dificuldades de dizer não, culpa, sensação de descontentamento e/ou raiva com o próprio corpo, impressão de estar “sujo”, em alguns casos, surgem pensamentos obsessivos, como lavar-se constantemente; além disso, é frequente a dificuldade no estabelecimento de relações de confiança com outros indivíduos adultos. Também estão descritas dificuldades no desenvolvimento emocional em adultos que vivenciaram abuso sexual na infância, e, por consequência, na sua maturidade comportamental. Vários indivíduos adultos referem problemas em dar e receber afeto, alegrarem-se em ocasiões habituais da vida, além de apresentarem desinteresse por atividades recreativas e que propiciem satisfação.

Outro aspecto que merece consideração é o risco para doenças sexualmente transmissíveis, associado ao fato da imaturidade física; ou seja, pelos órgão genitais não estarem completamente desenvolvidos, as chances de contaminação aumentam. Alguns países têm dados da relação entre abuso sexual e contaminação pelo vírus da Aids, como exemplo quase 5% das crianças infectadas na Nigéria foram contaminadas em circunstâncias que envolviam abuso sexual. No Brasil, os dados epidemiológicos sobre essa relação são escassos, apesar dos esforços empreendidos pelas autoridades nessa averiguação. Por sua vez, para outra doença sexualmente transmissível, o condiloma acuminado, verifica-se que a principal via de transmissão em crianças é em decorrência de abuso sexual; além dessa, o papiloma vírus (HPV) tem como meio de transmissão relevante essa conjuntura.

Há situações nas quais o provedor da família (geralmente o pai ou padrasto) é o perpetrador, e muitas famílias podem ficar vulneráveis na dimensão econômica com a possibilidade de se retirar essa pessoa do convívio familiar (não é incomum o acobertamento da situação de abuso sexual por parte dos familiares próximos à criança). Muito embora não seja a melhor alternativa, há circunstâncias nas quais é recomendável que a criança seja encaminhada para um local fora do ambiente familiar, como parentes próximos, casas de apoio institucionais, ou uma família adotiva; situações essas que implicarão numa ruptura e rearranjo familiar, e sem dúvida são casos que merecem assessoramento profissional especializado.

Além do que foi considerado, está descrito que há relação entre um indivíduo − na grande maioria das vezes do gênero masculino − ter sido abusado sexualmente durante a infância e ele mesmo ser um possível abusador no futuro, entretanto mais estudos são necessários para identificar as variáveis que compõem essa associação. No entanto, cada criança reagirá de forma diferenciada ao abuso sexual. Estudos que contemplem indivíduos abusadores sexuais que não tenham vivenciado essa situação durante a infância poderão contribuir para o melhor esclarecimento dessa situação, que imprime marcas indeléveis no psiquismo.

*Giancarlo Spizzirri é psiquiatra doutorando pelo Instituto de Psiquiatria (IPq) da Faculdade de Medicina da USP, médico do Programa de Estudos em Sexualidade (ProSex) do IPq e professor do curso de especialização em Sexualidade Humana da USP.

**Conteúdo adaptado do texto “Marcas Indeléveis”

Revista Psique Ed. 130