Conheça a história de Vaslav Nijinsky, “o bailarino louco”

Genial e polêmico, o bailarino Vaslav Nijinsky traz em sua biografia os ingredientes para compor o perfil de um personagem interessante e complexo

Por Anderson Zenidarci* | Foto: Shutterstock | Adaptação web Caroline Svitras

 

Filho de bailarinos poloneses que se apresentavam em teatros e circos, Vaslav Nijinsky (1889-1950) atuou desde os 4 anos dançando nas apresentações de seus pais. Iniciou nas aulas da escola de balé do Teatro Imperial, em São Petersburgo, na Rússia, cidade onde sua mãe se mudou com os filhos após terem sidos abandonados pelo pai. Vaslav tinha 7 anos. Muito aplicado, se destacava pela habilidade e postura. O primeiro papel de destaque veio aos 18 anos, em Le Pavillon d’Armide. Seu talento foi reconhecido. Sua bela aparência somada ao desempenho excepcional na dança, com saltos em que parecia pairar no ar e grande apuro técnico, o tornaram a sensação do espetáculo e comentário geral no meio cultural e artístico.

 

Em 1908 foi apresentado ao empresário e diretor do Ballets Russes, Sergei Diaghilev, por meio de seu então namorado, o príncipe Pavel Lvov. Diaghilev era carismático, culto e de forte personalidade. Dirigia com mão de ferro a companhia com o objetivo de sacudir o marasmo que acreditava haver feito o balé estacionar no tempo. Queria a europeização da dança russa e acabou por revolucionar totalmente o balé, utilizando o talento de coreógrafos inovadores e de estrelas de primeira grandeza, como a legendária bailarina Anna Pavlova. Esse encontro de dois talentos inquietos mudou totalmente a vida profissional e pessoal de ambos e também colaborou com a tão desejada inovação da dança clássica.

 

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Seu primeiro papel de destaque, depois que conheceu Diaghilev e começou a se relacionar com ele, foi como Albrecht, em Giselle, que estreou em Paris em 1911. Com o mesmo papel o bailarino protagonizou seu primeiro escândalo: Nijinsky dançou sem o calção que cobria seu leotard (a malha justa usada pelos bailarinos) em uma apresentação na qual estava presente a família imperial. No dia seguinte, foi demitido do corpo de balé do Teatro Mariinsky. Mas a parceria dos dois não foi abalada, ao contrário, o bailarino se tornou exclusivo da companhia de Diaghilev. Foi um período de glória, com uma sucessão de excursões e êxito. Encorajado por Diaghilev, por quem mostrava verdadeira adoração, Nijinsky decide assumir a função de coreógrafo para seus espetáculos. Mas nem tudo eram flores entre o casal. Diaghilev apresentava um quadro de transtorno obsessivo-compulsivo (TOC) de limpeza e fobia a bactéria e germes, pois apresentava verdadeiro horror a doenças e tomava cuidados extremos para não se contaminar: vivia limpando as mãos, não permitia que seus lábios fossem beijados e usava um lenço imaculadamente limpo para proteger a face. A gravidade da doença dificultava sua vida íntima e gerava insegurança em Nijinsk, que por sua vez apresentava uma personalidade extremamente dependente e frágil, solicitando demasiada ajuda para decisões mínimas do dia a dia. (Antagonicamente, nos palcos era um ser supremo, seguro, inteiro e revestia-se de força descomunal ao encarar e hipnotizar a plateia. Aliado a uma técnica perfeita, seu carisma levou a transformações significativas do balé de seu tempo, sendo seu maior triunfo elevar a figura masculina à mesma altura que o elemento feminino.) Um deus de sapatilhas que jamais soube conviver com as limitações impostas pela convivência social. Quanto mais sucesso profissional, incensado por seus contemporâneos – sua companhia excursionava por todo o mundo e recebia colaborações de compositores como Stravinsky, Debussy e Ravel –, maior se tornava a distância entre eles.

 

Library of Congress/Wikipedia

O relacionamento deles, que havia sido marcado pela paixão, agora era dominado pelo desespero. As coreografias assinadas por Nijinsky revolucionaram ainda mais a dança; L’Après Midi d’un Faune causou um escândalo sem precedentes ao mostrar uma sensualidade quase afrontosa para os padrões da época e depois porque rompia violentamente com as características fundamentais do balé tradicional. Na coreografia Jeux, Nijinsky causa espanto ao se apresentar em sapatilhas de ponta, técnica do balé reservada unicamente às mulheres. Mas Nijinsky, sentindo-se abandonado e solitário em excursão pela América do Sul, atormentado pelos ciúmes e facilmente influenciado e manipulado, casa-se precipitadamente com a condessa Romola de Pulszky, mulher obcecada pelo bailarino e que passa então a controlar a vida do marido. Teve com ela duas filhas: Kyra e Tamara.

 

Ao saber do casamento, que ocorreu em Buenos Aires, Diaghilev demite Nijinsky, dando o gatilho para a primeira grande crise relacionada aos problemas mentais do bailarino. Ao sentir-se sem o apoio do empresário e namorado, ele entra num processo de desorganização psíquica. Aos 29 anos, estava sendo acometido pela esquizofrenia, que se manifestou intensamente por duas características básicas: alucinação (percepção daquilo que não existe realmente) e delírios (alteração do juízo crítico). Abandona os palcos e perde a noção da realidade, tendo o estado confusional como quadro predominante. Durante os trinta anos seguintes, ele passou por inúmeras clínicas psiquiátricas, sempre muito alienado do meio social e atormentado em seus delírios e alucinações, até que, em 1950, aos 61 anos de idade, morre “o bailarino louco” em uma clínica em Londres.

 

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Adaptado do texto “Frágil revolução da vida”

*Anderson Zenidarci é mestre em Psicologia pela PUC-SP, supervisor e palestrante. Coordenador e professor do curso de Especialização em Transtornos e Patologias Psíquicas pela Facis, professor de pós-graduação no curso de Psicologia de Saúde Hospitalar na PUC-SP. Atua há mais de 30 anos em atendimento clínico em diversos segmentos da Psicologia, com especial dedicação à psicossomática, transtornos e patologias psíquicas.