Compreenda o luto e saiba como lidar com esse sentimento

O emocionante filme Sete Minutos Depois da Meia-Noite mergulha no doloroso trabalho da convivência de uma criança frente à doença terminal de sua mãe 

Por Dr. Eduardo J. S. Honorato* e Denise Deschamps** | Fotos: Divulgação | Adaptação web Caroline Svitras

Filme dirigido por Juan Antonio Bayona (O Impossível/2012) e roteiro escrito por Patrick Ness baseado em seu livro homônimo, aborda o luto e fala sobre o tema de maneira bastante singular, tocando a emoção naquilo que ela tem de mais regressiva, afinal todo enlutamento joga o sujeito em conteúdos infantis, o coloca frente ao desamparo mais fundamental. O filme joga muito bem com isso quando escolhe colocar em modo animação para representar os medos do protagonista.

 

Da obra freudiana um dos textos mais importantes é justamente o que traz o título Luto e Melancolia (1915), em que Freud lança conceitos bastante caros a toda sua teoria, talvez mesmo por fazer ver que o trabalho do luto é presente desde as mais tenras experiências. Para entender isso é preciso ampliar o entendimento sobre o luto para além da compreensão da perda de pessoas por falecimento. O sentimento de desapego que a tarefa reivindica é um dos mais custosos para o dinamismo psíquico, um dos que mais põem em xeque toda sua economia (no sentido freudiano, jogo de vetores). E, ao mesmo tempo, de certa maneira a tarefa que funda o sujeito e o mantém vivo no desejo.
 

Aprisionamento

Perder algo ou alguém é uma tarefa que dispende muita energia, algumas vezes empobrecendo completamente a capacidade do sujeito de refazer seus laços com o mundo externo; quanto mais é desconhecido para ele o que de fato perdeu, mais se verá preso a um redemoinho aprisionante. Quando alguém se vê diante de pessoas queridas em estado terminal, essa confusão de sentimentos muitas vezes aflora de maneira confusa e culpada. A inevitabilidade da perda enquanto o objeto permanece ainda partindo a cada dia, lentamente, provoca um esgotamento das forças que unem à vida, e muitas vezes um certo sentimento de querer encerrar surge alimentando ainda mais o circuito confusional gerador de culpa.

 

Todas as noites Conor tem o mesmo sonho com uma gigantesca árvore que decide contar histórias para ele que o fazem escapar das dificuldades através do mundo da fantasia

 

O desapego é um sentir que muitas correntes religiosas chamam para reflexão. Não é à toa que fazem isso, uma vez que entram sempre para tentar minimizar o grande impacto da consciência do desamparo que a ideia da morte nos provoca. Supostamente somos a única espécie que teria consciência de sua existência, talvez aí resida o segredo de desejarmos tanto. O medo que responde a essa questão nos cega no sentido de entendermos que a vida é uma sucessão de ganhos e de perdas, que para a flexibilidade que a vida exige precisamos aprender a deixar partir e a desprender-se do que já não vincula. Uma série de TV que vem batendo forte nesse tema é Leftovers, que passeia pelos contornos da questão de forma despudorada e brinca com o delírio que ela pode abrir. As religiões, via de regra, buscam seu sustento aí.

 

Aprendemos desde muito cedo que a ausência é ameaçadora, começa ali nos distanciamentos maternos, mesmo quando saudavelmente representam apenas faltas momentâneas. Demora-se toda uma infância para que se possa prescindir da presença permanente de quem nos fornece a primeira matriz do amor (cuidado). Aprendemos na adolescência que é preciso uma dose de raiva para afastar-se desse vínculo em busca de alguma autonomia, é necessário certa tensão e um deslocamento da gratificação, coisa que mais uma vez se organiza via a sexualidade, nessa fase já em sua plenitude de busca e deslizamentos. Essas experiências fundam as relações que atravessam todo e qualquer acontecimento, seja ele de ordem pessoal, seja de todo um grupo ou ainda como um sentir coletivo. Podemos ser a criança ressentida ou o adulto que entende a perda como algo que poderá impulsionar os novos vínculos.

 

É preciso aprender a soltar, a desprender-se do objeto quando ele nos amarra ao núcleo do ressentimento. Que a vida pede passagem e requer uma boa dose de coragem de soltar-se para que a estagnação não alimente monstros em sentimentos que estragam o belo que havia antes do fim. Os monstros internos não nascem à toa, trazem recados que precisam de escuta e desdobramentos. Um sintoma assustador quer comunicar, quer também curar. Por mais contraditório que isso possa parecer, não são os sintomas o mal que assola o sujeito, isso porque em parte eles são também uma tentativa de cura, e esse filme é uma verdadeira aula sobre esse aspecto no qual a Psicanálise orienta toda sua técnica. Ela começou ouvindo as “bocas de ouro” (Lacan) para entender que nossos piores monstros internos são em parte nossos heróis que bravamente enfrentam aquilo que nos submete.

 

Revista Psique Ciência & Vida Ed. 137

Adaptado do texto “O dinamismo do luto”

*Eduardo J. S. Honorato é psicólogo e psicanalista, doutor em Saúde da Criança e da Mulher.

**Denise Deschamps é psicóloga e psicanalista. Autores do livro Cinematerapia: Entendendo Conflitos. Participam de palestras, cursos e workshops em empresas e universidades sobre este tema. Coordenam o site www.cinematerapia.psc.br