Comportamento social está ligado à testosterona. Entenda

Por Marco Callegaro* | Foto: Shutterstock | Adaptação web Caroline Svitras

A representação mental que a maioria das pessoas tem a respeito das Neurociências envolve a imagem de um cérebro, com neurônios, regiões cerebrais e neurotransmissores. Nessa ideia popular, as relações humanas e a dimensão social dos seres humanos parecem pertencer a outro domínio de estudo, que nada tem a ver com a Neurofisiologia ou Neuroquímica. No entanto, cada vez mais fica claro, à medida em que as Neurociências amadurecem, que o ambiente social, o comportamento e o cérebro têm enorme influência mútua, e estão em contínuo processo de interdependência. Esse movimento tem sido chamado de Neurociência Social e envolve o estudo interdisciplinar, em múltiplos níveis, de mecanismos neurais, hormonais, celulares e genéticos subjacentes a organizações, que transcendem o indivíduo isolado. Em outras palavras, processos sociais influenciam eventos neuro-hormonais, da mesma forma que processos neuro-hormonais influenciam o comportamento social.

 

Um exemplo dessa influência recíproca pode ser encontrado na variação do nível do hormônio testosterona, que pode ser disparado por gatilhos sociais. Em macacos, um aumento do nível desse hormônio impele os machos ao comportamento sexual. Por outro lado, a simples observação de que fêmeas, sexualmente receptivas, estão por perto aumenta a secreção de testosterona. Em um estudo conduzido na Austrália, rapazes adolescentes faziam duas manobras de skate, uma delas bem simples e executada com facilidade. Já a outra manobra era bem difícil e ousada, e a dificuldade levava a um tombo, na maioria das vezes. Um grupo de garotos fez as duas manobras dez vezes na frente do pesquisador e, depois, repetiu tudo de novo.

 

Outro grupo fez o mesmo, só que, desta vez, tiveram que desempenhar na frente de uma garota muito atraente de 18 anos. Com a garota observando, os garotos tentaram mais a manobra difícil. Análise da saliva dos garotos mostrou que a testosterona se elevou na frente da garota e sua ação no cérebro induziu os adolescentes ao impulso de demonstrar saúde e vigor, assumindo mais risco. Ou seja, a visão de uma garota atraente aumenta a testosterona e faz os garotos se exibirem, mostrando coragem ao correr risco maior. Em nosso passado evolutivo, as fêmeas selecionavam os pretendentes com base em demonstrações de coragem e habilidades, que poderiam ser úteis para proteger e alimentar a prole. Portanto, os exibidos tendem a chamar mais a atenção das meninas, conferindo um “prêmio Darwinista” de mais chances de reprodução aos afoitos. Pena que o mesmo mecanismo possa levar a mortes de adolescentes por exibição em rachas de moto ou carro…

 

Portanto, a imagem de um cérebro isolado, respondendo, passivamente, a comandos de genes ou fármacos, deve ser substituída pela compreensão de que nosso sistema nervoso está imerso em um conjunto dinâmico e recíproco de influências de ordem biológica, psicológica e social.

 

Revista psique Ciência & Vida Ed. 105

Adaptado do texto “Neurociência Social”

*Marco Callegaro é psicólogo, mestre em Neurociências e Comportamento, diretor do Instituto Catarinense de Terapia Cognitiva (ICTC) e do Instituto Paranaense de Terapia Cognitiva (IPTC). Autor do livro premiado O Novo Inconsciente: Como a Terapia Cognitiva e as Neurociências revolucionaram o modelo do processamento mental (Artmed, 2011).