Sexualidade vem desde o nascimento

A construção do sujeito se dá logo depois do nascimento e é marcada por experiências e movimentos pulsionais, os quais definirão a maneira como a pessoa vai experimentar a sua sexualidade, seu corpo e relações pessoais

Por Eduardo Lucas Andrade* e Paulo Roberto Ceccarelli** | Fotos: 123 RF | Adaptação web Caroline Svitras

O que se passa na mente de uma pessoa homofóbica é tema de inúmeros e constantes estudos ao longo dos anos. Talvez seja importante destacar que o que o homofóbico projeta não é a homossexualidade. Homossexualidade não pode ser vista como sinônimo de destruição, nem de agressão. É no ato que ele perpetra, ou melhor, na passagem ao ato que ele dá vazão, tal como numa catarse, à luta que o assola por dentro. Não raro, após atos desse tipo, não apenas ligados à homofobia, o sujeito relata ter sido tomado por um outro interno e incontrolável. Ora, esse outro pode ser entendido como moções pulsionais, cujas representações no mundo externo encontram-se bloqueadas devido a movimentos repressivos. O que o homofóbico projeta é a luta que trava em si mesmo na tentativa de silenciar as parcelas de amor deste sexual, transformando, assim, o amor em ódio, o manifestar em censurar e o fazer laços em destruições. A salvação pela pulsão de morte é ledo engano. O homofóbico não projeta a homossexualidade, ele projeta seus conflitos para não deixar que o sexual se manifeste, algo falho. O sexual sempre se manifesta, queira-se ou não, e os Ideais frente a ele sempre surgirão.

 

“Os Ideais, que são construções culturais, serviriam para ‘direcionar’, para normatizar aquilo que, de outra forma, seria percebido como ameaçador. Todavia, tal empreitada é, em sua essência, impossível, pois o sexual infantil está sempre pronto a fazer retorno nas situações mais inusitadas e nos momentos mais inesperados: os sonhos, os atos falhos, os sintomas, as fantasias mais secretas e os desejos mais inconfessáveis, as frustrações e as insatisfações que levam as pessoas aos consultórios; tudo isso testemunha o fracasso tanto do recalcamento quanto da tentativa de criar-se uma sexualidade ‘Ideal’, que corresponderia a uma ‘natureza humana’ que se pretende universal. Onde esse recurso falha, quando determinada expressão da sexualidade escapa ao recalque, ou não corresponde ao Ideal, temos o preconceito” (Ceccarelli, 2000).

 

O sexual sempre foi motivo de incômodos para o ser humano, sendo do real, não vai bem e tampouco cessa de se inscrever. Já a sexualidade, ponto de organização em torno deste sexual, também incomoda pela sua insuficiência, pois ao passo que busca fugir deste sexual do qual não se pode fugir, ela aponta suas raízes e denuncia que a perversão toca nas repressões e cultura, não tão somente no recalque que estrutura o humano na dinâmica pulsional. O preconceito atravessa a todos, o ato discriminatório, não necessariamente.

 

“Onde existe sexualidade, há preconceito; os Ideais traduzem tentativas de criar uma norma – a ‘natureza humana’ – para enquadrar, para controlar, para direcionar as pulsões; o preconceito, em suas diversas expressões, demonstra a insuficiência desse recurso e denuncia a falência da barreira criada para manter afastada da consciência aquilo que ameaça de dentro e que abala os valores estéticos e morais: o retorno das moções pulsionais – anárquicas, plurais e parciais – em busca de satisfação. O sentimento de culpa apareceria toda vez que houvesse uma tensão – negativa – entre o eu e o Ideal” (Ceccarelli, 2000).

 

Narcisista

O homem lobo do homem é narcisista e não aceita nomenclaturas que mostram como ele é no íntimo sexual de si mesmo. Gerando, assim, para os que ameaçam sua veste de sexualidade, descargas destrutivas por incapacidade de rir de si mesmo e de assumir este sexual que não se enquadra a controles. Busca o poder justamente onde é impotente. “Uma criança sente-se inferior quando verifica que não é amada, o mesmo se passa com o adulto” (Freud, 1936).

 

 

Indagada quanto ao exercício da intolerância, Elisabeth Roudinesco, em entrevista publicada na revista Percurso 37, aponta que “estamos deslizando de um progressismo necessário e civilizador para um higienismo totalitário, que só poderá produzir efeitos perversos”. Por perverso, Stoller afirma que esta é a forma erótica do ódio e, McDougall, que: “Perverso seria a tentativa de impor a imaginação erótica a um outro que não consentisse nisso ou que não fosse responsável. Em geral, eu reservaria o termo ‘perversão’ como um rótulo para atos em que um indivíduo impõe desejos e condições pessoais a alguém que não deseja ser incluído naquele roteiro sexual” (McDougall, 1997).

 

Em nível social, é possível dizer que “uma das óbvias injustiças sociais é que os padrões de civilização exigem de todos uma idêntica conduta sexual” (Freud, 1908). A proposta para que a discriminação torne-se algo amenizado, já que não acabará, é a de um trabalho que vise desidentificação com certos ideais. Preconceito e discriminação causam tanto sofrimento que desautorizam vidas serem vividas.

 

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Adaptado do texto “O gozo perverso da discriminação: Relação com o advir da sexualidade antecede nascimento”

*Eduardo Lucas Andrade é psicanalista e psicólogo. Autor do livro Psicanálise e Educação: Contribuições da Psicanálise à Pedagogia publicado pela editora Gulliver, selo Artigo A, 2017. Membro da Fatias de Análise. Contato: psicanaliseemcena@hotmail.com

**Paulo Roberto Ceccarelli é psicólogo e psicanalista. Doutor e pós doutor em Psicopatologia fundamental e Psicanálise – Paris 7 – Diderot. Sócio do Círculo Psicanalítico de Minas Gerais (CPMG) e do Pará (CPPA); membro da Société de Psychanalyse Freudienne – Paris; professor e orientador de pesquisas do Mestrado de Promoção de Saúde e Prevenção da Violência/MP da Faculdade de Medicina da UFMG; Fundador e coordenador do Instituto Mineiro de Sexualidade (IMSEX). Contato: paulorcbh@mac.com