Complexo de Édipo não necessariamente explica parricídios

A análise de um crime, por vezes considerado inexplicável, tem duas possibilidades iniciais para se chegar a uma explicação: pode ser compreendido psicologicamente ou psicopatologicamente. Uma, definitivamente, exclui a outra

Por Guido Arturo Palomba* | Foto: Wikipedia | Adaptação web Caroline Svitras

Se uma pessoa ofende e é ofendida, se dá um soco e recebe uma facada, se está sem dinheiro, assalta e leva a bolsa, são ações compreensíveis psicologicamente, ainda que moralmente condenáveis e puníveis pela lei. Porém, se uma pessoa empurra outra nas linhas do metrô, sem a conhecer, sem ter sido provocada, sequer olhada; se uma pessoa dá com o taco de basebol na cabeça de um desconhecido, dentro de livraria, sem que antes tenha havido qualquer contato entre ambos; se dispara a esmo uma metralhadora dentro do cinema, mata e fere pessoas, não rouba nem reivindica nada e se deixa prender, sem reação, com a arma carregada, essas são condutas que somente podem ser explicadas psicopatologicamente. Ou seja: diante de ações como essas, temos de admitir um quid, grande ou pequeno (nesses exemplos dados, grandes) de loucura, de anormalidade mental, de psicopatologia.

 

Assim, a análise de um crime tem duas possibilidades iniciais: podemos compreendê-lo psicologicamente ou podemos compreendê-lo psicopatologicamente. Um exclui o outro, mais ou menos assim: a perna está quebrada ou não está, a mulher está grávida ou não está, tem psicopatologia ou não tem.

 

Nos crimes bem bizarros, é fácil visualizar a loucura, pois logo nos salta aos olhos que tal ação não pode ter sido praticada por pessoa normal. Os exemplos são inúmeros e os mais significativos são os parricídios (parere, parir), ou seja, assassinatos de ascendentes. Para matar pai, mãe ou avós precisa atravessar o metron da normalidade mental, salvo em uma única ocasião, quando o parricídio foi praticado em legítima defesa. Do contrário, como regra, é inadmissível psicologicamente o assassinato de ascendente. Obrigatoriamente, algo de psicopatológico aconteceu.

 

Uns dirão que, diante de crimes dessa natureza, Freud explica psicologicamente, pois o parricídio está na base de sua doutrina, no Complexo de Édipo, cujo personagem, depois de ter matado seu pai Laio, viveu maritalmente, durante anos, com Jocasta sua mãe. Porém, isso não vale para os crimes verdadeiros: Édipo matou o pai sem saber que era o seu genitor e esposou a mãe, desconhecendo ser esta sua genitora. Quando Terésias, o adivinho cego, revela-lhe a realidade, Édipo rasga os próprios olhos (e Jocasta se suicida).

 

Esse fato mostra que Édipo era totalmente normal, ao contrário dos parricidas verdadeiros. A principal diferença está nas capacidades de entendimento e de determinação de Édipo, que não sabia que matava o pai e esposava a mãe. Quando soube, determinou-se de acordo com a realidade revelada e destruiu-se, em atitude compreensível psicologicamente, dada a enormidade da tragédia. Ou seja, compreendeu e determinou-se de acordo, características das pessoas normais mentalmente.

 

Já nos parricídios verdadeiros, o autor desconhece (por delírio, por retardo mental etc.) que age contra o ascendente, e se entende o que está fazendo (matar), é totalmente incapaz de se determinar de acordo com esse entendimento (fissura por drogas, impulsão epiléptica etc.). Nesse passo, há que se admitir algo de anormal, de grave, que rompe os freios éticos e morais, a engendrar a conduta violenta. Todos os parricidas verdadeiros perderam a razão ou o livre arbítrio, diferentemente do que ocorre na tragédia grega Édipo Rei.

 

Em outras palavras: em parricídios, o Édipo de Freud não explica – por ser compreensível psicologicamente – o que a psicopatologia é capaz de esclarecer.

 

Revista Psique Ciência & Vida Ed. 101

Adaptado do texto “Quando Freud não explica”

*Guido Arturo Palomba é psiquiatra forense e membro emérito da Academia de Medicina de São Paulo.