Como a Alienação Parental atrapalha o processo de aprendizagem

Lidar com esse problema é angustiante, mas a solução está na busca de ajuda profissional, inclusive judiciária e médica, tanto para cessar o processo de agressão, como para ajudar adultos e crianças

Por Maria Irene Maluf* | Foto: Shutterstock | Adaptação web Caroline Svitras

Alguns temas, não especificamente ligados à aprendizagem, mas que influem de modo expressivo sobre ela, acabam por se tornar frequentes nos consultórios de Psicopedagogia. São assuntos, em geral, relacionados à família, que acabam influindo no desenvolvimento mental das crianças e, consequentemente, no seu amadurecimento cognitivo, emocional e social.

 

Entre esses temas, aparece a Alienação Parental, “a interferência na formação psicológica da criança ou do adolescente promovida ou induzida por um dos genitores, pelos avós ou pelos que tenham a criança ou adolescente sob a sua autoridade, guarda ou vigilância para que repudie genitor ou que cause prejuízo ao estabelecimento ou à manutenção de vínculos com este” (Lei 12318/2010).

 

É um nome relativamente novo (Richard Gardner, 1985) para um problema familiar antigo e que, felizmente, desde 2010 tem regulamentação a respeito no Brasil, diminuindo, assim, os abusos que levaram muitos pais e mães a se virem um dia parcial ou totalmente afastados de seus filhos, sem qualquer motivo justo para isso.

 

Funções Executivas e Aprendizagem

 

O problema ocorre, na maior parte das vezes, após as separações litigiosas, quando a guarda fica estabelecida para um dos cônjuges. Sem compreender que tanto a separação quanto a briga são do casal, muitos envolvem as crianças na luta por puro desejo de vingança, de dominação e até desmoralização do ex-parceiro.

 

Ao invés de preservarem seus filhos e os deixarem crescer com equilíbrio emocional e mental, tendo boa imagem e modelo de ambos os pais, até mesmo alguns avós e tios se prestam, de modo às vezes inconsciente, a fazer intrigas, desvalorizar, degradar e culpabilizar a figura materna/paterna da criança, a qual se torna uma vítima indefesa, pois não tem recursos internos para compreender o que acontece e tende a sofrer em silêncio as consequências desses atos de violência contra a sua infância.

 

 

Crianças nessa situação tendem, em poucos meses, a sofrer distúrbios, como depressão, ansiedade e medo doentio. Podem desenvolver problemas de aprendizagem escolar e dificuldades de relacionamento social, inclusive, que se estende à sua vida futura, quando deverão ser capazes de conseguir estabelecer relações estáveis e terão, provavelmente, dificuldades em o fazer.

 

Tal pai, tal filho?

 

Mas, de modo geral, as crianças podem ser ajudadas na inversão desse quadro, no qual prevalece a depreciação de um de seus pais. Começando com a firme determinação da própria vítima em mudar a situação e buscar ajuda profissional para si e para o filho, criando recursos para se aproximar do alienador e buscar reverter a situação.

 

A conscientização da criança, rememorando bons momentos do passado, e o apelo ao seu senso de justiça, assim como o alargamento da clareza do fato inegável de que ela pode precisar futuramente, não apenas do outro genitor, mas da família deste, que também acaba sendo sacrificada nesse processo de alienação. Enfim, há meios de trabalhar e resolver, com inteligência e afeto, esse problema, ou mesmo buscar outros caminhos, os legais, desgastantes, mas por vezes imprescindíveis para o bem de todos.

 

Outro aspecto a lembrar é que existe um processo similar acontecendo em muitas casas, onde os pais convivem (até harmoniosamente): os filhos, que muitas vezes não são devidamente poupados das discussões, são ainda levados de modo quase sutil, lento, mas constante, a se afastare de um deles, a reconhecer apenas defeitos e menos valia, em uma das figuras de seus genitores e em sua família de origem. Tão grave quanto a alienação tratada na lei, esta também causa danos irreversíveis na formação das crianças e destrói a família.

 

Outra forma cruel em relação às crianças é aquela praticada contra os filhos advindos de um segundo casamento ou, mesmo, contra os próprios filhos, depois de um segundo casamento: quantas crianças se dizem abandonadas, ceifadas de atenção e carinho no próprio lar que as devia acolher.

 

Repensar o lugar que damos às nossas crianças pode explicar uma parte de seus problemas de comportamento e de aprendizagem: uma solução para tal questão não prescinde de uma análise crítica de nossa parte, enquanto adultos responsáveis por elas.

 

Revista Psique Ciência & Vida Ed. 106

Adaptado do texto “Alienação Parental e aprendizagem”

*Maria Irene Maluf é especialista em Psicopedagogia, Educação Especial e Neuroaprendizagem. Foi presidente nacional da Associação Brasileira de Psicopedagogia – ABPp (gestão 2005/07). É editora da revista Psicopedagogia da ABPp e autora de artigos em publicações nacionais e internacionais. Coordena curso de especialização em Neuroaprendizagem. irenemaluf@uol.com.br