Cleptomania: impulsividade ou falta de caráter?

O que se sabe hoje é que essa neurose comportamental, além de poder apresentar sinais logo na infância, também conta com fator de origem genética, porém, demonstrado no caráter da pessoa – então moldado até perto dos 7 anos de vida

Por Marta Pires Relvas* | Fotos: Shutterstock | Adaptação web Caroline Svitras

Hábitos e manias impulsivos, como o de pegar objetos dos outros, começam a ser observados e investigados desde a infância. Como se diz no ditado popular: “É de pequenino que se torce a orelha.” É desde a infância que se ensinam valores éticos e morais de boa convivência social, além de se descobrir possíveis transtornos de comportamentos, descritos como hábitos e manias impulsivos – por exemplo, o de pegar objetos dos outros.

 

Muitas crianças criam hábitos e cometem pequenos furtos, levando para casa objetos que não os pertencem, e os responsáveis não dão a devida importância para essas atitudes. Assim, a criança permanece sem as orientações adequadas, acreditando não ter cometido nada de errado, entendendo como natural a sua atitude. Uma vez acontecido esse episódio, pais e responsáveis precisam conversar com a criança e escutá-la para sanar possíveis problemas futuros.

 

O que pode ser considerado, na infância, a princípio, um desejo material, com objetivo de apropriar-se de algo que não é seu, pode ser implicitamente um transtorno de saúde mental – conhecido como cleptomania –, caso não seja cuidado pelos pais ou responsáveis com auxílio de profissionais qualificados para tal situação.

 

Cleptomania ou roubo patológico é um distúrbio mental, considerado uma neurose impulsiva, conhecido como um Transtorno do Controle dos Impulsos (TCI), que precisa de tratamento. Essa impulsividade de roubar é patológica, diferente do roubo intencional, o qual as pessoas fazem em geral por falta de caráter e, às vezes, por necessidade.

 

O termo “cleptomaníaco” comumente utilizado não é o mais correto. Na verdade, dever-se-ia denominar como indivíduo com Transtorno do Controle dos Impulsos ou com neuroses impulsivas, já que apresenta sinais de um comportamento incontrolável e repetitivo mecanicamente, por imposição de seu inconsciente. Esta pessoa, apesar de praticar uma coisa errada, que é o roubo, não consegue ter controle sobre o ato, mesmo não admitindo o roubo. Dessa forma, a TCI se caracteriza por um fracasso recorrente em resistir a impulsos de furtar valores monetários ou objetos para o uso pessoal.

 

 

O que se sabe hoje é que essa neurose comportamental, além de poder apresentar sinais logo na infância, também conta com fator de origem genética, porém demonstrado no caráter da pessoa – que é moldado até perto dos 7 anos de vida. Outro aspecto importante a ser considerado é o ambiente social, pois pode impor ao indivíduo estímulos e informações nem sempre considerados positivos para o bom desenvolvimento do caráter.

 

A cleptomania se apresenta por uma impulsividade que é um componente mensurável do comportamento, ou seja, por quantas vezes o indivíduo repete tal ação, qual a frequência? Apesar de ter bases fisiológicas, o TCI faz o comportamento ocorrer sem oportunidade para reflexão, muitas vezes não condizendo com o contexto em que o indivíduo está inserido.

 

É considerada como um transtorno dos impulsos, estando diretamente inserida na quarta edição do Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM – IV; American Psychiatric Association, 1994).

 

Vale diferenciar que a cleptomania é considerada uma impulsividade e não uma compulsão, pois tem como principal objetivo aliviar a ansiedade ou prevenir sofrimentos, além de atuar como proteção a possíveis riscos. Os atos impulsivos expõem o indivíduo a situações potencialmente perigosas ou danosas. A impulsividade, de modo oposto à compulsão, é caracterizada por ser egossintônica. Logo, ocorre quando a vocação é aceitável e compatível com a personalidade da pessoa e possui um componente prazeroso no momento da execução do ato.

 

Compulsivo versus impulsivo

O que difere os atos compulsivos dos impulsivos é a maneira ritualizada com que estes são realizados subitamente. O indivíduo compulsivo quer aliviar sua ansiedade ou prevenir sofrimentos, enquanto os que promovem atos impulsivos, em geral, vinculam-se à obtenção de prazer. Um ato pode estar atrelado ao outro, porém não são considerados interdependentes.

 

É um transtorno caracterizado pela impossibilidade repetida de resistir aos impulsos de roubar objetos. Os objetos não são roubados por sua utilidade imediata ou seu valor monetário; o sujeito pode, ao contrário, querer descartá-los, dá-los ou acumulá-los. Este comportamento se acompanha habitualmente de um estado de tensão crescente antes do ato e de um sentimento de satisfação durante e imediatamente após a sua realização. O roubo não é cometido para expressar raiva ou vingança e não é uma resposta ao delírio ou a alucinação, por conseguinte, considerado impulsivo.

 

Estudos sugerem que a cleptomania não é tão rara como se supunha, porém o preconceito em relação a essa patologia inibe o indivíduo na hora de buscar tratamento. Além disso, a similaridade entre os índices em adolescentes e adultos pode significar que a cleptomania seja um transtorno crônico quando não tratado.

 

 

O roubo patológico em mulheres geralmente se manifesta na idade de início bimodal – entre a puberdade e o início da vida adulta e ao redor da menopausa. Os homens parecem cometer o roubo inicialmente na adolescência. Ao que tudo indica, não há diferença entre as classes sociais e econômicas; cerca de metade dos indivíduos rouba por cinco anos ou mais. Tanto homens quanto mulheres apresentam comorbidade psiquiátrica em algum momento da vida.

 

Os indivíduos afetados frequentemente têm outros distúrbios mentais, tais como distúrbio bipolar, anorexia nervosa, bulimia nervosa ou distúrbio da ansiedade. Adultos com cleptomania roubam porque isso oferece alívio ou conforto emocional. Poucas pessoas procuram tratamento até que são pegas roubando, ainda que, na maioria das apreensões, não resulte em pena com privação de liberdade. Um terço dos indivíduos tem algum diagnóstico psiquiátrico, mais frequentemente como neuroses, transtornos psicossomáticos e de personalidade, bem como, eventualmente, psicoses e déficit mental.

 

Deve ser dada especial atenção ao diagnóstico para a cleptomania, pois se caracteriza pela presença de culpa ou remorso e ausência de motivos para o roubo, como ganho monetário, uso pessoal, roubar para impressionar alguém ou para manter ou sustentar um vício. Os roubadores patológicos descrevem o impulso para furtar como incongruente com caráter incontrolável ou moralmente errado, além de apresentarem muitas das vezes sinais de depressão, ansiedade e vergonha após o ato de roubar.

 

O roubador por vingança – compulsivo – é diferente do roubador patológico – impulsivo –; apesar de apresentar desordens de condutas, consiste em ir contra uma pessoa ou um grupo em resposta a algo que foi percebido ou sentido como prejudicial, e é provocado por reações emocionais como raiva, sentimento de inveja, desejos de ter e poder.

 

Ainda existem poucas informações psiquiátricas sobre o curso e prognóstico da cleptomania, mas foram descritos três cursos típicos: cleptomania esporádica, com episódios breves e longos períodos de calmaria; cleptomania episódica, com períodos prolongados de furtos e períodos de remissão; cleptomania crônica, com algum grau de flutuação. Ainda que ocorram eventuais condenações por furtos, o transtorno pode continuar por muitos anos.

 

Revista Psique Ciência & Vida Ed. 95

Adaptado do texto “Cleptomania: impulsividade ou falta de caráter?”

*Marta Pires Relvas é bióloga, professora de neuroanatomofisiologia da aprendizagem no curso de pós-graduação de Neurociência Pedagógica da Faculdade Integrada AVM, psicopedagoga. Autora dos livros Neurociência e o Transtorno da Aprendizagem, 5ª edição, editora Wak; Neurociência e Educação, 2ª edição, editora Wak; Fundamentos Biológicos da Educação, 5 ª edição, editora Wak; Que cérebro é esse que chegou à escola? Editora Wak, 2012; e Neurociência na Prática Pedagógica, editora Wak, 2012.