Cientistas estudam os impactos da língua estrangeira na nossa mente

Língua estrangeira influencia tomada de decisões. Mas de que forma?

Por Jussara Goyano* | Foto: 123 Ref | Adaptação web Caroline Svitras

Um estudo da Universidade de Chicago com a participação de cientistas de diferentes nacionalidades foi além das pesquisas anteriores que verificaram como o uso de uma segunda língua afeta a nossa cognição. Que isso influencia a nossa tomada de decisões eles já sabiam. A atenção dos pesquisadores voltou-se, então, ao nosso desempenho emocional sob processamento do idioma estrangeiro em um momento de escolha.

 

No experimento realizado, voluntários deveriam decidir se hipoteticamente matariam um indivíduo empurrando-o em frente de um trem para salvar outros cinco sujeitos, enquanto se comunicavam em sua língua nativa ou em um segundo idioma no qual fossem fluentes. Aqueles que se comunicavam em língua estrangeira se mostraram muito mais dispostos a sacrificar apenas um do que aqueles que usaram seu idioma nativo. Mais importante: eles não hesitaram em decidir por aquela morte.

 

A conclusão inicial foi a de que, frente a dilemas cruciais como esse, o uso da língua estrangeira favoreceria uma decisão mais utilitária. Como essa decisão se liga a nossas emoções e acaba beneficiando um maior número de pessoas em prol da vida foi a grande questão a se investigar.

 

Na visão dos pesquisadores, porém, o que parecia ser uma escolha centrada meramente na lógica do bem comum poderia também ser o uso da língua afetando nossa capacidade de prever cenários de forma mais emocional, ou nossa deliberação baseada em tabus de nossa própria cultura, espécie de memória afetiva de certa forma ligada a nossa língua nativa.

 

Os cientistas testaram, então, outras hipóteses para saber se a decisão tomada envolvia mesmo tal lógica ou outros pontos críticos. Voluntários bilíngues, escolhidos de maneira a criar a mesma combinação de idiomas frente às várias situações apresentadas, continuavam sempre tomando a decisão mais utilitária. Mas suas motivações não eram exatamente o bem geral, mostrando que uma maior propensão à quebra de tabus culturais (no caso, matar ou ferir alguém) era o que estava em jogo.

 

Os voluntários eram favorecidos pelo uso de uma língua que os distanciasse de suas raízes e dos valores culturais ligados a esse tipo de situação, oferecendo o gatilho lógico e emocional que ocasionaria a decisão mais utilitária. Resta saber, agora, se tal esquema prevalece também em cenários reais.

 

Para saber mais

Sayuri Hayakawa, David Tannenbaum, Albert Costa, Joanna D. Corey, Boaz Keysar. Thinking more or feeling less? Explaining the foreign-language effect on moral judgment. Psychological Science, 2017.

 

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*Jussara Goyano é jornalista e coach certificada pelo Instituto de Psicologia Positiva (IPPC). Atua com foco em performance e bem-estar. Estudou Medicina Comportamental na Unifesp. E-mail: atendimento@jussaragoyano.com