Cibercondri@: a saúde em segundo plano

A ansiedade induzida como resultante de buscas on-line relacionadas à saúde é uma atividade que vem aumentando de forma exponencial no campo da ciberpsicologia, ainda que existam poucos estudos nessa área

Por Igor Lins Lemos* | Fotos: Shutterstock | Adaptação web Caroline Svitras

Indubitavelmente, a Internet revolucionou os modelos de comunicação, permitindo também que novas formas de entretenimento fossem desenvolvidas, assim como o acesso às informações dos mais variados conteúdos. A World Wide Web remodelou também os antigos padrões de relacionamentos, seja por meio das redes sociais, dos fóruns ou dos programas de interação em tempo real, disseminados também nos celulares. Não apenas essas modificações foram provocadas pelo avanço da cibercultura como também o acesso à saúde foi reformulado para novos padrões. Atualmente, é possível, por exemplo, verificar resultados de exames de sangue no endereço eletrônico do laboratório ou acessar sites sobre saúde mental e de planos de saúde sem sair de casa.

 

Apesar dos diversos benefícios da Internet para a saúde humana, outra manifestação psicopatológica (vinculada ao campo eletrônico) vem sendo discutida, além da dependência de jogos eletrônicos, Internet, cibersexo e celular: a cibercondria. O nome é um neologismo dos termos ciber e hipocondria. Apesar de parecer ofensivo, pesquisadores revelam que a intenção é que a etimologia da cibercondria não seja compreendida como sendo pejorativa.

 

 

Novidade psiquiátrica

A procura de informações sobre sintomas e doenças na Internet é comum e, muitas vezes, serve a propósitos úteis. De acordo com Aiken e Kirwan (2012), a Internet é um valioso recurso na busca de informações médicas e continuará sendo por muitos anos. Porém a web tem, em paralelo, o poder de aumentar a ansiedade dos indivíduos que não tiveram treinamento médico quando estes buscam diagnósticos em websites. Dessa forma, atualmente, diversas pessoas que são excessivamente angustiadas ou muito preocupadas com a sua saúde realizam pesquisas constantes na Internet e apenas se tornam mais ansiosas ou amedrontadas: este padrão é definido como cibercondria, termo que surgiu em meados de 2000.

 

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A cibercondria é um novo fenômeno. A ansiedade induzida como resultante de buscas on-line relacionadas à saúde é um sintoma que vem aumentando de forma exponencial, sendo relacionada ao campo da ciberpsicologia, ainda que existam poucos estudos neste campo. De acordo com o Office for National Statistics (2011), 42% das famílias do Reino Unido acessaram a Internet nos últimos três meses em busca de informações relacionadas à sua própria saúde. É sugerido que “saúde” seja o segundo tema mais procurado na Internet.

 

 

Ansiedade e cibercondria

Um estudo realizado por Muse et al. (2012) questionou se a cibercondria é um novo fenômeno ou apenas uma classificação equivocada. Por meio de avaliação da ansiedade em um grupo de 82 participantes, 46 deles apresentaram alta ansiedade e 36 indivíduos revelaram ter baixa ansiedade. Os pesquisadores estabeleceram uma hipótese de que quanto maior fosse a ansiedade desses indivíduos, maior seria o comportamento de busca por informações relacionadas à saúde na Internet. Os resultados responderam positivamente a essa indagação. Os participantes mais ansiosos buscavam esse tipo de informação na rede com mais frequência, passavam um tempo maior nesse tipo de busca e consideravam que essa era uma atividade que provocava ainda mais ansiedade. Esse grupo ainda recorria a outros websites sobre condições médicas que nunca foram diagnosticadas, liam constantemente sobre experiências de adoecimento de terceiros e participavam ativamente de fóruns relacionados às patologias. Os autores apontam que a busca de informações na rede pode, em vez de beneficiar esses pacientes muito ansiosos, potencializar a ansiedade em relação à própria saúde.

 

 

 

A busca por informações torna-se inapropriada quando o objetivo é um procedimento diagnóstico, pois o usuário pode interpretar de maneira distorcida a sua leitura, supervalorizando sintomas que não são indicativos de condições médicas ou mesmo menosprezando sinais de doenças. White e Horvitz (2009) realizaram uma pesquisa com 515 indivíduos que iriam revelar as suas experiências sobre como investigam seus sintomas e suas preocupações médicas (como o autodiagnóstico) na Internet.

 

Os resultados demonstraram que, em geral, a população estudada apresentava um baixo índice de ansiedade com a saúde, porém preocupações com a saúde e a busca dessa informação na Internet ocorriam sempre ou com muita frequência em um de cada cinco participantes. Aproximadamente dois entre cada cinco indivíduos mencionaram que a interação com websites de saúde aumentava sua ansiedade e, por fim, metade dos participantes sugere que esse comportamento, na realidade, diminui a sua ansiedade. Os pesquisadores ainda mencionaram que predisposição à ansiedade (vulnerabilidade mental) pode contribuir para uma busca excessiva de informações sobre a sua própria saúde na Internet.

 

Prática clínica

Uma consultoria australiana mencionou que quase 89% dos médicos na Austrália já tiveram pacientes que trouxeram, ao seu consultório, informações da Internet sobre o seu estado clínico. Como psicoterapeuta cognitivo-comportamental, enfocando em meus atendimentos o campo das dependências tecnológicas, posso assegurar que essa prática não é exclusiva com profissionais da Medicina. Diversos pacientes já trouxeram diagnósticos para o setting clínico que foram cuidadosamente encontrados com o “Dr. Google”: TDAH, TOC, depressão, transtornos de personalidade. A lista é extensa. O dado de minha prática em consultório revelou o oposto: a maior parte desses pacientes cometeu equívocos com as informações que foram levadas às sessões. Isso significa que é incorreto informar-se em relação ao seu problema? De forma alguma. A psicoeducação é uma das estratégias mais importantes para que o paciente conheça o seu problema e saiba como pode ser ajudado. Entretanto esse tipo de direcionamento só pode ser feito por um profissional da área da saúde mental, seja ele um psicólogo ou psiquiatra.

 

Infelizmente, ainda existe um quantitativo assustador de indivíduos que ainda não compreendem que as novas manifestações tecnológicas são reais. O processo de psicoeducação sobre os transtornos vinculados ao mundo virtual é necessário, vide as reportagens anteriores na Psique sobre a dependência de jogos eletrônicos, cibersexo e cyberslacking. De acordo com Lemos e Santana (2012), o prognóstico em relação a esses transtornos não é positivo, tendo em vista que a literatura científica prevê que um quantitativo cada vez maior seja acometido por esses modelos psicopatológicos.

 

O principal objetivo desse artigo, além de ressaltar a novidade e a importância desse tema, não é sustentar a ideia de que, a partir de agora, os sintomas sejam negligenciados ou esquecidos e a Internet se torne uma inimiga da saúde. O foco é ressaltar que buscar imediatamente uma “resposta” de um sintoma na Internet pode aumentar a sua ansiedade. Dessa forma, é necessária uma reflexão para verificar se esse artifício está ajudando ou, na verdade, afetando negativamente a sua qualidade de vida.

 

Revista Psique Ciência & Vida Ed. 102

Adaptado do texto “Cibercondri@: a saúde em segundo plano”

*Igor Lins Lemos é psicoterapeuta cognitivo-comportamental, tutor da Faculdade Pernambucana de Saúde (FPS) e doutorando em Neuropsiquiatria e Ciências do Comportamento (UFPE). É palestrante e pesquisador das dependências tecnológicas. Contato: igorlemos87@hotmail.com