Cérebro de psicopatas é programado para mentir

A capacidade de aprender rapidamente a mentir pode ser uma estratégia favorecida pela evolução no caso de psicopatas

Por Marco Callegaro* | Foto: Shutterstock | Adaptação web Caroline Svitras

A psicopatia, ou transtorno de personalidade anti-social, é um conjunto de características de personalidade que envolve charme superficial, falta de culpa ou remorso, desrespeito por normas ou obrigações, baixa tolerância a frustração, entre muitos outros traços. Existe considerável discussão sobre quais são os traços mais essenciais e definidores deste condição, bem como a ideia de que talvez existam diferentes tipos de psicopatia. Segundo alguns pesquisadores, podemos falar em psicopatia primária, que exibe o traço de dominância sem medo, geralmente com razoáveis habilidades sociais e bom desempenho no trabalho, e a secundária, que envolve impulsividade auto centrada, onde o auto controle é muito baixo e não existe consideração pelos outros.

 

Independentemente dos diferentes tipos de personalidade anti-social, a mentira é frequentemente associada a esta condição. Psicopatas de fato mentem melhor? Será a mentira uma estratégia superdesenvolvida no processamento mental de pessoas com psicopatia? Apesar da psicopatia ser caracterizada por faltar com a verdade e tendência a manipular os outros através de mentiras, ainda não está claro se, de fato, indivíduos com elevada psicopatia realmente mentem melhor que as pessoas da população em geral. Um estudo procurou investigar essa questão, focando na capacidade de aprender a mentir em uma tarefa experimental.

 

A pesquisa comparou pessoas com alta intensidade de traços de psicopatia com aqueles que apresentavam baixa intensidade. Os resultados mostraram que os sujeitos com alto nível de psicopatia aprendem muito rapidamente a mentir, de forma que parece ser uma capacidade natural, pronta para ser aprimorada pela experiência. A diferença entre os dois grupos foi notável, uma grande diferença de performance na capacidade de mentir, que ocorreu em função de uma espécie de treinamento em mentir realizada no laboratório. Antes do treinamento, não havia diferença entre os dois grupos, mas os indivíduos com alta psicopatia dispararam na frente em termos de performance depois de duas experiências de treinamento.

 

Os participantes do estudo olharam fotos de rostos humanos, e em algumas dessas fotos recebiam um pedido do pesquisador para mentir que não haviam visto aquela pessoa anteriormente. O interessante é que os cérebros dos sujeitos foram escaneados através de neuroimagem, e o tempo de reação aos estímulos foi medido, para se poder avaliar sua performance.

 

Pesquisas anteriores sobre mentira já haviam identificado que o cérebro precisa se esforçar mais para mentir do que para falar a verdade. A média de tempo de reação para se falar a verdade em pessoas da população em geral é de menos de meio segundo, enquanto a mentira leva um segundo ou mais. Para mentir, o cérebro necessita suprimir a verdade, além de construir a falsa versão. Normalmente, a mentira recruta uma série de processos cerebrais como sistema atencional, memória de trabalho, controle inibitório e resolução de conflitos. Portanto, várias áreas associadas a essas funções e padrões de processamento são ativadas mais fortemente quando uma pessoa está mentindo. Isso foi verificado nos indivíduos que apresentavam baixo nível de traços de psicopatia, mas, curiosamente, não foi encontrado nos sujeitos com alta psicopatia. Pelo contrário, os indivíduos altamente psicopatas mostraram redução de atividade nessas áreas, como se estivessem naturalmente propensos a ter facilidade para processar a mentira.

 

Uma conceitualização recente na pesquisa da personalidade antissocial envolve o reconhecimento de que os indivíduos de alto funcionamento com traços elevados dessa característica têm funções executivas tão preservadas ou superiores a indivíduos com baixa intensidade de psicopatia. De forma geral, o funcionamento de redes neurais envolvidas no processamento cognitivo é superior em psicopatas, embora pesquisas tenham demonstrado atividade reduzida em circuitos cerebrais ligados ao processamento emocional, com um possível descompasso entre o processamento de emoções e dos aspectos cognitivos.

 

Revista Psique Ciência & Vida Ed. 139

Adaptado do texto “Psicopatas mentem melhor?”

*Marco Callegaro é psicólogo, mestre em Neurociências e Comportamento, diretor do Instituto Catarinense de Terapia Cognitiva (ICTC) e do Instituto Paranaense de Terapia Cognitiva (IPTC). Autor do livro premiado O Novo Inconsciente: Como a Terapia Cognitiva e as Neurociências Revolucionaram o Modelo do Processamento Mental (Artmed, 2011).