Canabidiol: médico desmente efeitos negativos da substância

Médico mexicano Saúl Garza Morales é pioneiro no uso do canabidiol e desmente que todos os derivados da maconha causam danos. Existe um consenso internacional no reconhecimento dos benefícios do produto no controle de convulsões epilépticas em crianças

Por Lucas Vasques* | Fotos: 123 RF | Adaptação web Caroline Svitras

Embora ainda exista um estigma em relação a seu uso, mesmo entre os profissionais da área de saúde, o canabidiol vem conquistando seu espaço como alternativa no tratamento de uma série de doenças. Um dos pioneiros dessa prática é o neuropediatra mexicano Saúl Garza Morales.

Ele explica que a maioria dos profissionais de saúde que ainda parece ser refratária a essa utilização mostra desconhecimento sobre os derivados da planta e, especialmente, em relação aos compostos que realmente têm efeitos psicotrópicos.

 

 

Você é pioneiro no uso do canabidiol no México. Por que defende o uso desse medicamento derivado da Cannabis sativa, popularmente conhecida como maconha?

Morales: A experiência popular com o fumo da maconha e com diversos tipos de infusões é milenar, em especial no uso para tratamento de dor e de convulsões. Além disso, o conhecimento recente sobre a neuroquímica cerebral e os efeitos de derivados da planta nos receptores do sistema nervoso central nos permite antecipar potenciais usos benéficos do canabidiol em doenças específicas, não apenas neurológicas, mas também imunológicas, inflamatórias e neoplásticas.

 

Quais são os mitos e verdades que envolvem esse medicamento, uma vez que seu uso está cercado de polêmicas e, inclusive, proibições?

Arquivo pessoal

Morales: Um mito muito generalizado é o de que todos os derivados de maconha são drogas potencialmente viciantes e que causam danos à saúde, o que está longe da verdade, já que existem mais de 400 derivados químicos extraídos da planta, e cada um deles tem suas próprias características químicas. Pelo menos quatro desses compostos (entre eles o canabidiol) não têm efeito psicotrópico nem apresentam potencial de dependência, portanto são vendidos sob a categoria de “suplementos alimentares” sem restrição alguma no México, nos Estados Unidos e em muitos países das Américas.

 

Se é evidente que o uso do canabidiol não causa efeitos psicotrópicos, por que há tenta resistência, inclusive dentro do universo dos profissionais de saúde?

Morales: Grande parte da resistência dos profissionais de saúde a respeito do uso do canabidiol está relacionada ao desconhecimento sobre os derivados da planta e, em especial, sobre os compostos que realmente têm efeitos psicotrópicos. Na minha prática clínica e em conferências com profissionais de várias partes da América Latina, confundem-se os derivados altamente purificados da planta (como o canabidiol) com óleos extraídos da forma artesanal diretamente de plantas comumente usadas para uso recreativo, o que explica que haja muitas dúvidas sobre seus potenciais efeitos medicinais. Só quando explicamos como funciona o processo de extração de óleos de plantas geneticamente projetadas para produzir esses compostos, bem como a complexidade de sua elaboração e purificação, é que os profissionais compreendem os potenciais benefícios de substâncias como o canabidiol.

 

Quais os benefícios práticos de sua utilização?

Morales: Atualmente, existe um consenso internacional no reconhecimento dos benefícios do canabidiol no controle de convulsões epilépticas em crianças que sofrem de doenças que não responderam a tratamentos convencionais, como é o caso da síndrome de Lennox-Gastaut e da síndrome de Dravet. Reconhece-se também a eficácia do uso contínuo de compostos com diversas combinações de canabidiol (CBD) e tetrahidrocanabinol (THC) para o tratamento de dor crônica, em pacientes com esclerose múltipla e neuropatia diabética, por exemplo. No entanto, muitas novas linhas de pesquisa se abrem todos os dias, como o potencial benefício sobre doenças que afetam a memória (Alzheimer e outras demências), distúrbios do movimento (mal de Parkinson e síndrome de Tourette). Em nosso grupo de estudo, estamos testando os benefícios que podemos obter em crianças com transtorno do espectro autista.

 

Confira a entrevista na íntegra e saiba mais sobre o uso do canabidiol na revista Psique Ciência & Vida Ed. 141. Garanta a sua aqui!

Adaptado do texto “Mito generalizado”

*Lucas Vasques é jornalista e colabora nesta publicação.