Brincar influencia no desenvolvimento neurológico infantil. Entenda

Nos países em que se encontram os melhores níveis educacionais do mundo as crianças pequenas são estimuladas a brincar nos seis primeiros anos de vida. Entenda como a atividade influencia no desenvolvimento neurológico infantil

 

*Por Maria Irene Maluf

Foto: Shutterstock

Ainda que muito se tenha falado sobre a importância do brincar na infância, continuamos a ver em nossa sociedade um perceptível menosprezo por essa atividade. No seu lugar, há uma valorização sem qualquer fundamento científico concretizada por meio da estimulação precoce pelo início da educação formal das crianças.

Nos países em que se encontram os melhores níveis educacionais do mundo não ocorre dessa forma: neles, as crianças pequenas são estimuladas a brincar nos seis primeiros anos de vida. E isso porque, além de muitos achados, se tem comprovação científica de que a brincadeira está na base do desenvolvimento da função cerebral mais importante, a capacidade de controlar o comportamento para atingir um objetivo, ou seja, a Função Executiva, indispensável em todo aprendizado formal.

Desde a mais tenra idade, a criança começa a estabelecer um tipo de jogo de envolvimento físico e estimulação sensorial que permite a ela explorar o mundo à sua volta: leva objetos à boca, os tateia, experimenta novos estímulos auditivos e visuais, por exemplo. Gradualmente, passa a demonstrar intencionalidade nesses movimentos e em relação às pessoas com quem mais convive nas famosas brincadeiras de esconde e acha, do atira e pega. Com isso, vai desenvolvendo sua acuidade sensorial, motora, a inteligência, a linguagem.

Concomitantemente, nessas brincadeiras ocorrem as primeiras experiências emocionais de prazer, de alegria, assim como também de estresse. O desenvolvimento de algumas áreas cerebrais ocorre nessa fase, a partir tanto da estimulação provocada por substâncias neuroquímicas, que são liberadas durante esses momentos alegres de brincadeira, quanto de outras, decorrentes de substâncias liberadas em situações de estresse.

Mais um aspecto importante ligado ao jogo se vê no próximo estágio, quando a criança iniciará as suas primeiras identificações naturais de gênero: meninas preferindo bonecas e meninos gostando mais de aviões e carrinhos, embora se saiba que podem brincar com todos os brinquedos sem qualquer prejuízo.
Outro passo é a escolha preferencial de companheiros do mesmo sexo para brincadeiras, criando os famosos “clubes da Luluzinha e do Bolinha”. É o sentido social do brincar, competir, conhecer o outro, pertencer ao grupo, respeitar regras, controlar a impulsividade/agressividade e submeter-se a normas criadas por pares e não por adultos. Nesse passo se intensifica o período da regulação dos conflitos internos, e tais brincadeiras permitem vivenciar situações de risco sem correr perigo real, desenvolver bons modelos de identificação.

Há também momentos em que a criança deve ser estimulada a brincar com novos grupos, para aprender a lidar com realidades e pessoas diferentes, além de exigências de outros níveis. Jogar com crianças com temperamento contrário ao seu, suportar situações de estresse, brigar, fazer as pazes, tudo isso, longe dos pais, faz crescer!

Em outro momento deverá convidar amiguinhos para brincar em sua casa, assim como deverá ir à casa deles algumas vezes. Isso ajuda na socialização, no desenvolvimento da compreensão e respeito ao próximo, na aceitação das diferenças sociais.

Porém há momentos em que os adultos devem aprender a respeitar, quando a criança demonstra querer brincar só. Esse seu desejo é importante para firmar sua autonomia, sua autorregulação. Ela quer estar com suas coisas, experimentar a solidão, estar com ela própria: um aprendizado indispensável, que muitas vezes não é compreendido pela família.

Mas há um papel da brincadeira que hoje anda realmente esquecido e até delegado às escolas infantis, embora seja da família que a criança espera receber essa atenção: o papel da interação que o brincar exerce. Toda criança precisa se sentir amada e acolhida por seus pais desde seu nascimento e antes dele também.

A percepção de ser querida, de ter um lugar na família, é fundamental para todo desenvolvimento sadio. E uma forma especial de desenvolver essa interação é justamente por meio das brincadeiras, pois elas aproximam, permitem a troca de afeto, de toques carinhosos, de momentos alegres de aprendizado descontraído. Criam empatia, conhecimento do outro, confiança, dão noção de família, de grupo, de união.

Brincar com o bebê, ler histórias para ele, dar banho, passear ao ar livre, ensinar a andar de triciclo, a nadar, a jogar, etc. são atividades diárias que cabem aos pais e não a empregados e muito menos a creches e escolas. A brincadeira entre pais e filhos leva ao toque, ao abraço. E sabemos que bebês que não gozam de contato suficiente no início da vida sofrem de atraso de desenvolvimento cerebral, o que se vê, por exemplo, de uma forma muito triste, em crianças hospitalizadas ou institucionalizadas. Bebês e crianças pequenas e, na verdade, todas as crianças precisam criar vínculos, receber carinho, e para isso o toque, a brincadeira são fundamentais. Os anos da brincadeira passam rápido e são indispensáveis para a formação de um sistema nervoso adequado ao aprendizado escolar. E nenhuma criança prefere um estranho aos pais…
*Maria Irene Maluf é especialista em Psicopedagogia, Educação Especial e Neuroaprendizagem. Foi presidente nacional da Associação Brasileira de Psicopedagogia – ABPp (gestão 2005/07). É editora da revista Psicopedagogia da ABPp e autora de artigos em publicações nacionais e internacionais. Coordena curso de especialização em Neuroaprendizagem. irenemaluf@uol.com.br

**Conteúdo adaptado do texto “Estímulo à autonomia”

Revista Psique Ed. 121