Ansiedade e fim de ano

É importante destacar que a vida emocional de cada pessoa é singular, assim como sua forma de reagir a cada novo estressor que a vida impõe

Por Dr. Ricardo Abel Evangelista* | Foto: Shutterstock | Adaptação web Caroline Svitras

Dizem que os ansiosos, na verdade, habitam o futuro. Sempre despregados do momento presente, antecipam mentalmente o que está por vir e apressam-se no dia a dia para tudo. Não raramente, imaginam desfechos ruins para as coisas, preocupam-se, preocupam-se e preocupam-se. Ficam tensos e não conseguem simplesmente relaxar. Medo e insegurança brotam do prisma pessimista que muitas vezes dirige seus pensamentos que, quase que sem querer, buscam pela pior possibilidade, pelo pior desfecho que pode acontecer. Aceleram as coisas no que podem e ficam afobados para, assim, se livrarem logo do que quer que seja. Infelizmente para eles, nem sempre as coisas podem ser aceleradas ao seu gosto, nem sempre o tempo das coisas é o seu tempo e ele se frustra nesse incômodo e humano contato com a impotência frente ao desejo de controlar ou de prever as coisas. Com efeito, controle e ansiedade são grandezas inversamente proporcionais.

Nas pessoas com tal perfil, esse estado emocional desconfortável, que supostamente deveria surgir apenas de forma eventual somente quando houvesse motivo justo para tanto, acaba por se instalar de modo muito frequente pois é desencadeado por banalidades e, amiúde, com intensidade bastante desproporcional. Esse é o cenário chamado pela medicina de ansiedade patológica, ou seja, um tipo de ansiedade que não mais é regulado adequadamente pelos eventos vividos mas parece ocorrer sempre em intensidade muito além do necessário para lidar com a tal situação. O resultado pode desembocar em um mosaico de sintomas: tensão psíquica e física, preocupação excessiva, dificuldade para relaxar, insônia (geralmente do tipo inicial), inquietação, sudorese, opressão no peito, tremores finos de extremidades, sufocações, taquicardias, dentre outros que, como estes, podem ou não ocorrer concomitantemente e em intensidades bastante heterogêneas.

 

A época de fim de ano simboliza para muitos o encerramento de uma etapa e a inauguração outra. Boa parte das pessoas encara a chegada do ano novo como uma porta que se abre para novas realizações e desafios. Essa é uma perspectiva que pode, para os mais ansiosos, servir como terreno fértil para que sua paz emocional esmaeça frente ao futuro desconhecido, surgindo sentimentos ambíguos, preocupações antecipatórias, tentativas frustras de supor como as coisas serão frente ao futuro incerto. O ano antigo se vai e com ele, o lugar de conforto habitual. O desconhecido é atemorizante à espécie humana.

 

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A ansiedade pelo que está por vir, entretanto, não pode ser entendida como uma emoção problemática, a priori. Até certo ponto, e dentro de certos limites, sentir ansiedade é absolutamente normal e fisiológico se o contexto bem a justifica, se a intensidade é proporcional ao problema, se a duração é auto-limitada, se a vida do sujeito não se paralisa nesse estado que, ao menos teoricamente, deveria ser meramente circunstancial. Em outras palavras, há uma diferença semântica entre estar ansioso e ser ansioso que merece ser minuciosamente compreendida. Disso depende a qualidade de vida de uma pessoa. Também vale notar que há aqueles que não eram desde sempre, porém se tornam, ansiosos em algum ponto da vida. Nesses casos, a ansiedade excessiva se instala de modo mais ou menos permanente, entre picos e vales, e se torna uma companheira inconveniente, adentrando, assim, o capítulo do que se denomina ansiedade patológica e suas várias vertentes.

Não é possível, entretanto, considerarmos que existam situações que exerçam os mesmos efeitos sobre as pessoas ou que sejam infalivelmente deflagradoras de ansiedade para qualquer um. É importante destacar que a vida emocional de cada pessoa é singular, assim como sua forma de reagir a cada novo estressor que a vida impõe pois dependem não apenas do arcabouço psicológico individual, da estrutura de personalidade de cada um que é fruto das experiências singulares de vida e do “treino” em lidar com certas situações, mas também de influências genéticas e aspectos neurobiológicos pessoais. Em outras palavras, os mesmos problemas que, para alguns, poderiam deflagrar intensa ansiedade, para outros, pouco ou nada acarretam. Fato é que cada indivíduo experimenta as situações de sua vida de forma única, personalíssima, inclusive a expectativa ímpar de um ano totalmente novo pela frente.

 

*Ricardo Abel Evangelista é psiquiatra, diretor do NUPEM – Núcleo Paulista de Especialidades Médicas.