Alguns aspectos do suicídio

Ato contra a própria existência pode ser causado por doenças psíquicas, como psicoses, alcoolismo, toxicomanias, degenerações senis, epilepsia e certas reações a vivências dolorosas

Por Guido Arturo Palomba* | Foto: 123 Ref | Adaptação web Caroline Svitras

Um dos capítulos mais agudos da Psiquiatria é o suicídio, ato insano contra o âmago da própria existência. Todos os instintos humanos derivam da mesma força fundamental, que é o instinto primordial ou de preservação. Assim, o instinto de alimentação (conservação do corpo), o sexual (reprodução para manter a espécie), o gregário (manutenção da comunidade) e até o instinto religioso (para a imortalidade da alma) são vertentes diferenciadas do instinto de preservação. Voltar-se contra essa força primordial é, portanto, um ato de insanidade mental.

 

Muitas doenças psíquicas pervertem essa lei natural, de modo especial as psicoses maníaco-depressivas, o alcoolismo crônico, as toxicomanias graves, as degenerações senis, a epilepsia e, também, certas reações primitivas a vivências dolorosas.

 

Do modus faciendi, por um lado, há aqueles que são cometidos com violência extrema. Por exemplo, pular de lugares altos, atirar na cabeça ou no coração, projetar-se na frente de veículo em movimento, que podem ocorrer por impulso (caso das drogas) ou premeditadamente, por reflexão (caso das psicoses). E por outro, estão aqueles cometidos sem esse tipo de violência, por exemplo, ingestão de sedativos, inalação de gás, uso de veneno, que também podem ocorrer de rompante (como na epilepsia) ou premeditadamente (como nas doenças senis).

 

Curioso notar que há suicídios atípicos, como os praticados por pessoas que não têm coragem de se matar. Nesses casos, se forem de fato suicidas, conseguirão arquitetar uma maneira de levar a cabo o desiderato. Por exemplo, contratar sicários para matá-los, de rara ocorrência. São os chamados suicídios per mano altrui. Há, também, os suicídios coletivos, verdadeiras psicoses coletivas, cujos eventos estão sempre ligados a delírios mágico-místico-religiosos.

 

Seja de que forma for, todos os suicídios são, ao cabo, desordens das leis do organismo e, estatisticamente, ocorrem na seguinte proporção: três suicídios de homens para um de mulher; o número de casos aumenta com a idade, excepcional antes dos 12 anos e frequência máxima a partir dos 65 anos; mais raro em indivíduos casados do que em solteiros; mais frequente nos meios urbanos do que nos rurais; parece variar o índice conforme a religião, mais raro em católicos e judeus do que em protestantes e ateus, mas há que se ter em conta que podem os primeiros comprovar menos ocorrências precisamente por razões religiosas.

 

A Organização Mundial de Saúde estima em cerca de um milhão de suicídios todos os anos e o Japão ocupa o primeiro lugar. Interessante lembrar que neste país está se tornando comum o suicídio marcado via internet, praticado por duplas ou por pequenos grupos de pessoas, uma espécie de pacto mórbido.

 

Para finalizar, cite-se que há várias lendas e especulações em torno do tema, entre elas, a de que animais se suicidam. Não, bichos não se autoexterminam, isso é próprio do homem. Aí vem a pergunta: e o escorpião, que, como dizem, circundado pelo fogo, pica o próprio corpo? Em verdade é lenda, uma vez que é imune ao próprio veneno. Morre, isto sim, por desidratação, cuja perda de líquido verga a cauda sobre o corpo, dando a impressão de autoflagelo.

 

Revista Psique Ciência & Vida Ed. 99

Adaptado do texto “Alguns aspectos do suicídio”

*Guido Arturo Palomba é psiquiatra forense e membro emérito da Academia de Medicina de São Paulo.