Adolescência: o drama de uma idade

A adolescência é uma fase de intenso desenvolvimento caracterizada por grandes transformações psicológicas e físicas, além de mudanças nas relações familiares. Saiba mais

Texto Maria Irene Maluf | Adaptação Isadora Couto | Foto Shutterstock 

Uma das épocas mais transformadoras da vida é o início da adolescência, pois não é apenas o jovem que muda psicológica e fisicamente, mas também, e em decorrência,  as suas relações familiares e sociais com seu entorno. Por isso, não é de estranhar que muitas vezes essa fase seja marcada por problemas familiares, escolares e pessoais, mais ou menos sofridos.
Acontece que essa é uma etapa de constante desenvolvimento neuro-hormonal,  que afeta, sobretudo, as áreas pré-frontais e cerebelares, responsáveis, entre outras, pela aprendizagem e pela adaptabilidade motora. Estudos atuais das Neurociências e da neuroimagem mostram que o desenvolvimento necessário para que um jovem atinja a maturidade neuronal, indispensável para alcançar a complexidade cerebral do adulto, é um processo que só termina após a adolescência. Além disso, depende, especialmente, da substância branca do cérebro, que, nessa etapa, apresenta um desenvolvimento superior ao da substância cinzenta, o que se traduz numa expressiva capacidade de estabelecer conexões entre áreas cerebrais distantes, que acarretam o aperfeiçoamento das funções cognitivas e melhoria da adaptabilidade social, ética e moral.

Nesse processo, diversas áreas cerebrais sofrem, simultaneamente, mudanças que afetam funções integradas do ser humano, por meio de processos maturacionais, como, por exemplo, aqueles que regulam as condutas motivacionais, de recompensa e de adaptabilidade do comportamento motor. Evidentemente, tais tipos de alterações, que afetam as funções integrativas, implicam, diretamente, na forma como os jovens enfrentam a vida e a aprendizagem acadêmica e se comportam no dia a dia. Não é de se estranhar que essa seja, em geral, a etapa mais conflitiva em nível escolar, já que o desenvolvimento neuro-hormonal, que marca essa fase, vai contra o modo como se apresenta o processo da aprendizagem formal, encontrado nas instituições de ensino. Além disso, o referido aumento da substância branca dá lugar a grande inquietação na conduta juvenil, que se traduz no aparecimento de comportamentos novos, incluindo os de ordem emocional e sexual, que, também, são fatores que afastam os jovens dos estudos e modificam, de forma contundente, o comportamento que tinham antes de entrarem na adolescência. somam–se a isso as expectativas familiares quanto ao seu desempenho escolar e a ansiedade que, em geral, ronda a vida dos pré-vestibulandos.

Mas há outros fatores a serem lembrados. O desenvolvimento da glândula pineal, por exemplo, acarreta mudanças no ritmo do sono, devido, principalmente, às alterações hormonais comuns à tal fase, promovendo o atraso da hora do adormecer (pelo acúmulo da oleamida) e do acordar. essa constatação já suscitou, em alguns locais, a ideia de retardar o início das aulas pela manhã para melhorar a capacidade de aprendizagem e memória dos jovens. A adolescência é, inegavelmente, uma época singular, onde se vivenciam experiências novas, e como os adolescentes são, de modo acentuado, bastante curiosos, sua atividade cerebral é intensa, já que esta é proporcional à estimulação ambiental. ademais, ocorre uma gradativa maturação do córtex pré-frontal, que permite acesso a novas e complexas funções de raciocínio, lógica, funções executivas, regulação da conduta emocional. São todas essas mudanças que afetam a capacidade de aprender! Outro fator importante é lembrar que os jovens, apesar de serem “cheios de energia”, precisam de momentos de descanso, pois são neles que ocorrem os processos cerebrais próprios para arquivamento e memorização dos novos conhecimentos.

Na escola, esse momento pode ser o de diminuição de exposição do aluno a novos conteúdos, cedendo lugar a um período, onde se enfatiza a repetição de algumas partes desses conhecimentos acadêmicos já aprendidos. a repetição diminui a atividade cerebral (mas o cérebro ativa esses processos frente ao novo), porém, aumenta a capacidade de arquivamento, memorização e resgate: as oportunidades de descanso ajudam na assimilação das informações e de sua elaboração para que a poda neural das sinapses não utilizadas nas áreas anteriores do cérebro, tenha um resultado eficaz no plano escolar. os processos têm, nessa fase em que o jovem cursa o ensino médio, um trabalho muito complexo, pois enquanto precisam ensinar, baseados em programas estruturados, repetitivos e sistematizados, devem desenvolver estratégias que prendam a atenção e desenvolvam o pensamento lógico, já que é comum os alunos, nessa fase, terem que dar conta de diferentes tarefas, simultaneamente, e antever as consequências, inibir condutas e estimular a tomada de decisões adequadas em suas vidas. Aliás, é frequente esses alunos gostarem de atividades que promovam o pensamento independente, com conteúdo que tenha utilidade na sua vida prática ou acadêmica futura. Jovens também apreciam e precisam manter relações cordiais com seus professores: sentir-se querido, importante, respeitado, é fundamental, mas isso não significa que queiram ter no professor mais um colega. assim como seus pais, professores são adultos que estão ali para orientar e oferecer segurança no longo caminho que é o amadurecimento humano até a autonomia total.

 

 

Revista Psique | Ed. 104