A Sexualidade feminina na análise de Lacan

Em “Uma mulher é o sintoma do homem” está apontado o verbo ser e não o verbo ter. Portanto, é do ser da mulher para o homem que Lacan está falando. O ser em questão se refere a ser o inconsciente do homem. Ser o sintoma inconsciente

Por Paul Kardous* | Fotos: Shutterstock | Adaptação web Caroline Svitras

A Psicanálise avançou em diversos pontos quanto à questão da sexualidade humana, mas alguns ficaram obscuros – e um deles diz respeito à mulher. Freud nunca discordou de que faltava muito para “entender” a sexualidade feminina. Não é à toa que, ao final de sua vida, procurou sintetizar e esclarecer seus pontos de vista em dois textos destinados a essa questão: “Feminilidade” e “Sexualidade feminina”. Nesses dois textos, Freud aceita e reconsidera a proposta dos psicanalistas Karen Horney, Melaine Klein, Helene Deutsch e Ernest Jones, segundo os quais para analisarmos as mulheres não podemos deixar de lado a relação destas com suas mães. Porém, Freud não aceita que a feminilidade seja primária e continua sustentando a sua tese a respeito da libido masculina, do falocentrismo e da inveja do pênis.

 

Para Freud todo ser humano encontrará sua orientação sexual a partir da relação entre o falo e a castração. A menina se fará mulher ao fazer uma mudança quanto à zona erógena do clitóris para a vagina e quanto ao objeto mãe para o objeto pai. O que possibilitará à menina abandonar a mãe e ir em direção ao pai será a decepção que ela sofrerá em relação à mãe por esta não lhe dar o tão almejado falo. Ressentida, irá procurar no pai o falo que deseja e que sua mãe não pode lhe dar porque não o tem. A vivência da castração da mãe não resolve a questão da feminilidade para a menina, mas a impulsiona em direção ao pai esperando dele o falo desejado. A cristalização nesse momento pode acarretar uma melancolização histérica pela perda da mãe como possuidora do falo. Ao recorrer ao pai, procurará elevá-lo à dignidade daquele que tem o falo, e que portanto poderá lhe dar. Porém, outra decepção irá acontecer, agora em relação ao pai, na medida em que ela se dá conta de que este, mesmo tendo os atributos fálicos, não pode dá-lo.

 

Diante dessa situação, ela poderá identificar-se com ele e tornar-se homossexual, poderá ficar numa posição sacrificial na esperança de um dia obtê-lo, ou ainda desenvolver um ódio que causará uma inibição em relação aos homens. Assim, para Freud, o melhor que pode acontecer a uma mulher para se tornar feminina é assumir sua inveja do pênis. A inveja do pênis introduz a dimensão do desejo de forma paradoxal: será perdendo que se ganha, será vivendo a sua própria falta que encontrará a sua feminilidade.

 

Tornando-se mulher

Mesmo com esses desenvolvimentos, Freud ainda não fica satisfeito a respeito da questão do tornar-se mulher. Convoca os psicanalistas a pesquisarem mais sobre essa questão. Lacan, ainda muito jovem, já era psiquiatra de um presídio feminino, e interessando-se pela loucura feminina desenvolve a sua tese de doutorado onde já sinalizava seu apego à Psicanálise. Lacan não contradiz Freud quanto à questão do falo, da inveja do pênis, da passividade, da importância da relação primitiva entre a menina e sua mãe. Nesse sentido, ele é bem freudiano! Entre as novidades que Lacan introduziu, no início de seu ensino, está a de que existem duas dimensões da castração, uma imaginária (inveja do pênis) e a outra simbólica. Lacan consegue tal façanha ao cruzar os conhecimentos adquiridos da linguística estrutural com os ensinamentos de Freud. Define então o falo como um significante e não mais apenas referido ao pênis, que não deixa de ser visto por Lacan como o representante imaginário do falo. Com isso distingue o falo imaginário, o falo simbólico e no final de seu ensino o falo real, o que lhe permite avançar na questão de como a menina do sexo feminino torna-se uma mulher feminina.

 

 

A castração simbólica definida por Lacan consiste em fazer a mãe renunciar ao seu gozo em relação à filha. Essa interdição se dará através da interdição paterna que rompe a onipotência materna fazendo com que a mãe se mostre submetida à lei que vem de um terceiro que a interdita de gozar de sua filha, assim como de abandoná-la. É dessa forma que o pai aparece como aquele que possui o falo que falta à mãe. Como resultado, o pai liberta a filha de garantir o gozo da mãe. Dessa feita, a menina pode fazer a passagem do amor à mãe ao amor ao pai. É nesse momento que a relação ao Édipo será distinta para cada sexo. A menina, contrariamente ao menino, entrará no Édipo a partir da castração simbólica enquanto para o menino é a castração simbólica que o tirará do Édipo.

 

Para a menina, o perigo de uma parada neste momento é de cristalizar na função paterna a onipotência infinita que outrora a mãe supostamente possuía. Isso levaria a uma cristalização da passividade frente ao gozo paterno e, portanto, a uma posição de ser o falo do pai, este Outro encarnado, alimentando a esperança de um dia poder ter o falo, com o risco sempre presente da identificação masculina a partir do ideal do eu paterno.

 

 

A questão do que é uma mulher não se esgota aí no âmbito da relação do sujeito desejante com a castração. Lacan ainda dará alguns passos em busca da singularidade feminina. Para tanto, teve de dar as voltas necessárias para se certificar de que as mulheres não faziam conjunto em torno de uma identidade própria, assim como os homens o fazem através do falo. Freud já havia adiantado isso de forma clínica ao afirmar que no inconsciente só encontramos fálicos e castrados e não masculino e feminino. Para Freud, meninos e meninas acreditam que só existem os fálicos.

 

Mas Lacan, ao centrar sua atenção sobre as diferentes apresentações do gozo, abre uma porta para avançarmos em nossas pesquisas. Será no campo do gozo que a mulher, segundo Lacan, nos mostrará o que tem de mais singular.

 

Nas fórmulas da sexuação ele propõe que a mulher tem a possibilidade de duas modalidades do gozo: o gozo fálico e o gozo do Outro.

 

 

 

Revista Psique Ciência & Vida Ed. 87

Adaptado do texto “Sexualidade feminina ”

*Paul Kardous é psicanalista, psicólogo, mestre em Comunicação e Semiótica na PUC-SP. Membro do Fórum do Campo Lacaniano de São Paulo. Autor do livro Impotência sexual – O real, o simbólico e o imaginário.