A psique de Carrie Fisher

A vida de Carrie foi mais movimentada que a maioria dos seus personagens. Colecionou trabalhos de sucesso e internações clínicas decorrentes da dependência química e do diagnóstico de bipolaridade

Por Anderson Zenidarci* | Fotos: Shutterstock | Adaptação web Caroline Svitras

Carrie Frances Fisher nasceu em Beverly Hills, Los Angeles, em 1956. Nasceu entre estrelas de Hollywood, filha do cantor Eddie Fisher e da atriz Debbie Reynolds. Quando tinha apenas dois anos de idade, seus pais se separaram. Ela não tinha lembranças da família vivendo junta. Seu pai se casou imediatamente com Elizabeth Taylor, “melhor amiga” de sua mãe, mas que estava vivendo um relacionamento extraconjugal com seu pai. Foi um escândalo na época. Depois ele teve mais quatro casamentos, sempre com atrizes ou cantoras famosas. Eddie era belo, sedutor, famoso e rico. Sua vida amorosa foi tumultuada, e Carrie vivia essa inconstância afetiva do pai.

 

A atriz tinha um relacionamento difícil com a mãe Debbie Reynolds. Eram duas personalidades fortes, combativas e dominadoras. Muito iguais dentro de total diferença de estilo de vida

Sua mãe casou-se mais duas vezes, teve uma vida relativamente pacata, em compensação o relacionamento conflituoso das duas era frequentemente manchete nos tabloides de fofocas. Carrie sempre foi curiosa e observadora, chegava a ser tímida em meio a tantas festas e glamour que os pais viviam. Passou a infância lendo literatura clássica e escrevendo poesias, era uma leitora compulsiva. Estudou no Beverly Hills High School até os 15 anos, quando surpreendeu a todos e debutou como cantora na Broadway com o musical Irene, em 1973, obtendo sucesso de público e crítica. Inicia-se aí uma carreira múltipla; no decorrer de sua vida, além de seu trabalho de atriz e cantora, foi escritora, fotógrafa, roteirista, produtora e humorista.

 

No final dos anos 1970, tornou-se viciada em várias drogas. Ela falava publicamente de seus problemas com bebidas alcoólicas e drogas. Dizia que era igual ao seu pai, que fazia uso dessas mesmas substâncias.

 

Foi diagnosticada com transtorno bipolar, porém usava os remédios psicofármacos com álcool e cocaína, agravando o quadro psiquiátrico. Apresentava depressão severa e mania acentuada, era ciclotímica no estado de ânimo e humor. O problema tornou-se tão grave que o diretor de filmes John Landis quase a demitiu de Os Irmãos Cara de Pau (1980) por ser incapaz de ficar sóbria o suficiente para filmar uma cena adequadamente. Tornou-se mais conhecida por interpretar a Princesa Leia na série de filmes Star Wars, mas trabalhou em mais de 20 filmes, entre eles: Shampoo (1975), Hannah e suas Irmãs (1986), Harry e Sally: Feitos um para o Outro. (1989). Escreveu vários romances semiautobiográficos, ganhou elogios por falar publicamente sobre suas experiências e esclarecer para os leigos quais as características da psicopatologia que possuía e também sobre sua toxicodependência. Era uma pessoa culta e esclarecida. Foi internada algumas vezes em clínicas de recuperação para dependentes químicos.

 

Em 1983, casou-se com o cantor Paul Simon. Durante seu casamento malsucedido, que durou poucos meses, ela abortou um filho deles. Do seu segundo casamento, com o agente Bryan Lourd, teve sua única filha Billie Catherine. O relacionamento do casal terminou quando Lourd se assumiu bissexual. Ela manteve alguns relacionamentos após o segundo divórcio, mas não casou novamente. Em 2005, seu namorado Gregory Stevens foi encontrado morto na casa de Carrie, em um quarto de hóspedes. Levantaram-se suspeitas de que ele morrera ao lado dela, enquanto usavam drogas juntos, e após a morte o corpo foi levado para o quarto de hóspedes para não comprometê-la, mas nada foi comprovado. O que ficou provado, através de uma autópsia, é que ele morreu por uma overdose de cocaína e OxyContin.

 

“Sou melhor pessoa que atriz. E no meio que nasci e cresci acontecem mais situações inusitadas e estranhas que qualquer filme que possa ser escrito” (Carrie Fisher)

Outra grande batalha que enfrentou foi o relacionamento com a mãe Debbie Reynolds. Eram vizinhas de casa em Hollywood, dividiam o mesmo quintal. Para um relacionamento tão difícil, essa extrema proximidade representava a relação ambivalente de amor e ódio que tinham. Sua mãe era uma lenda dos áureos tempos dos musicais de Hollywood. Era elegante, linda, discreta, clássica, carregou durante anos o estigma de mulher traída e injustiçada. Era avessa a drogas. Eram duas personalidades fortes, combativas e dominadoras. Muito iguais dentro da total diferença de estilo de vida.

 

Em uma de suas internações na clínica de recuperação, Carrie se dedicou a escrever um livro tendo a relação delas como tema. Criou personagens claramente identificados como ela e a mãe. O livro Memórias de Hollywood foi muito bem-aceito e surgiu o convite para a própria Carrie adaptá-lo para o cinema. Foi também um sucesso estrelado por duas divas: Shirley MacLaine e Meryl Streep nos papéis de mãe e filha respectivamente. Em dezembro último, Carrie, aos 60 anos, estava em turnê internacional para lançamento do seu livro Diários da Princesa, publicado em 2016, quando passou por uma emergência medica, dentro de um avião no voo de Londres para Los Angeles. Recebeu tratamento de emergência de passageiros médicos, mas durante a internação teve outra parada cardíaca e não resistiu. Sua mãe morreu um dia depois, aos 84 anos, após sofrer um derrame cerebral, devido ao abalo emocional pela morte da filha. Foram veladas e enterradas juntas. Praticamente em um ápice do roteiro da vida real.

 

Revista Psique Ciência & Vida Ed. 135

Adaptado do texto “Estrela efervescente”

*Anderson Zenidarci é mestre em Psicologia pela PUC-SP, supervisor e palestrante. Coordenador e professor do curso de Especialização em Transtornos e Patologias Psíquicas pela Facis, professor de pós-graduação no curso de Psicologia de Saúde Hospitalar na PUC-SP. Atua há mais de 30 anos em atendimento clínico em diversos segmentos da Psicologia, com especial dedicação à psicossomática, transtornos e patologias psíquicas.